Corretoras
Disputando um mercado muito conservador
João Lanza, da Mundinvest
Crescendo na gestão de carteiras de ações, em Minas Gerais

Fundada em 1989, em Belo Horizonte, a corretora Mundinvest atua num mercado conhecido pelo extremo conservadorismo, o de Minas Gerais. “No contexto global da renda variável, o peso do mercado é inferior ao peso do Estado no Produto Interno Bruto (PIB)”, afirma João Lanza, diretor e sócio principal da instituição. “O mineiro é muito conservador, mas não há do que se queixar”, declara ele, cuja trajetória no mercado de capitais chega aos 38 anos.

A iniciação em bolsa ocorreu por acaso. Nascido em Sete Lagoas, a 62 km da capital, Lanza tinha de encontrar um emprego para custear os estudos. Amigos do pai de Lanza o indicaram para algumas empresas e ele foi chamado pela corretora Sofal. “Corretora de valores, o que é isso?”, indagaram os vizinhos. “Na época, em Sete Lagoas, só se falava de corretora de imóveis, nem o contador conhecido, que trabalhava no Banco da Lavoura, sabia do que se tratava.” Mas ele aceitou o emprego, mudou-se para Belo Horizonte e começou a vida profissional vendendo papéis de incentivos fiscais da área da Sudene. “Até que, em 1969, o gerente de ações da Sofal me levou para conhecer o pregão. Dois dias depois ele saiu de férias e eu fiquei no meio das ‘feras’, aos 19 anos. O cavalo passou arriado e eu tinha de montar.”

Venceu o teste e, dois anos depois, viveu o boom da bolsa de 1971. “A grande bolsa da época era a do Rio, num tempo de comunicações difíceis: tinha de pedir ligação telefônica na véspera e rezar para que fosse concluída.” Em caso positivo, a ordem do cliente era passada, mas “era preciso esperar até o dia seguinte para saber se tinha sido executada”. Em resumo, foi uma época de “completa falta de comunicação e transparência”, ao contrário do que acontece hoje.

Antes de fundar a Mundinvest com Eduardo de Almeida Pinto e dois sócios capitalistas, Aloísio Teixeira de Souza e Antonio Elias Moiysés, ambos ainda hoje na empresa, Lanza trabalhou nas corretoras Cruzeiro e BMG. Constituída a Mundinvest, que no início operava muito no open market, teve de enfrentar os problemas do Plano Collor e, desde então, voltou-se cada vez mais para o mercado acionário. Hoje, a renda variável representa mais de 90% das atividades da corretora.

“Nosso foco é a gestão de carteiras e clientes maiores”, observa. Mas a expertise em ações empurrou Lanza para os clubes de investimento. A corretora administra cerca de R$ 300 milhões distribuídos entre 30 clubes, dos quais participam mais de 200 investidores pessoas físicas. “Com o estímulo aos clubes, entramos com força no segmento. Somos hoje a maior corretora em volume de investimentos, com movimento em bolsa da ordem de R$ 1 bilhão, neste ano, e a maior gestora de clubes de investimento de Minas Gerais”, revela.

Lanza tem ainda uma participação ativa na associação de analistas do mercado de capitais. Em 1985, refundou a seção mineira da Abamec, hoje Apimec, que interrompera as atividades na década de 70. Foi o primeiro presidente da Abamec refundada e, recentemente, presidiu a Apimec. “Nossa preocupação é técnica, orientamos os investimentos com visão de longo prazo e análise fundamentalista.”

A popularização do mercado acionário é tratada como “a coisa mais fantástica que ocorreu”, nota ele. “Tive a honra de participar desse projeto, o grande passo da Bovespa, que retirou o estigma de que bolsa é coisa de tubarão.” Ao contrário, as bolsas dos países desenvolvidos dependem da grande massa de investidores. “No Brasil, o interesse pela Bolsa tem muito a ver com a popularização e o Novo Mercado”. Ambos estão permitindo cumprir o objetivo de capitalizar as empresas. “Em 2006, as colocações de ações e debêntures já representaram o dobro do aplicado pelo BNDES, que até há pouco era praticamente o único financiador de investimentos de longo prazo no País.”

Instalada numa casa no bairro de Lourdes, em Belo Horizonte, com um patrimônio de R$ 16 milhões, a Mundinvest tem não apenas clientes mineiros, mas também de outros Estados. Na mesa estão oito operadores, de um total de 25 funcionários. A área de análise recebe informações de consultorias especializadas, cujas indicações são submetidas ao “filtro interno, feito por pessoas com boa formação em mercado de capitais”. Também nas aplicações o foco não é regional. “Acompanhamos muitas empresas do País, buscando nos antecipar ao mercado, sem preocupação com o giro rápido.” São raros os negócios da Mundinvest no mercado de opções.

Lanza vê com otimismo o futuro do mercado acionário. “Aqueles que estão temerosos com o índice Bovespa a 50 mil pontos vão se decepcionar”, enfatiza. “O mundo mudou e os fundamentos são muito melhores, após 13 anos de inflação controlada, uma juventude que não conhece a inflação”. Há enormes oportunidades de investimento no País, “carente em qualquer setor que se olhe”. Com a melhora dos fundamentos macroeconômicos e a perspectiva de investment grade (a graduação do Brasil como país seguro para investir), “os investidores internacionais terão ainda mais confiança em aplicar aqui”.

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