Entrevista
Giovanni Barontini
Valdir Sanches

A questão ambiental chega às empresas

Giovanni Barontini, da Ética
Fiananças sustentáveis incorporam valores sociais e ambientais

Há 14 anos, quando começou a estudar o meio ambiente, Giovanni Barontini deparou com uma situação curiosa: os problemas ambientais eram vistos como “esotéricos”. As empresas não participavam. “Era uma coisa mais restrita à academia e ao governo.” Hoje, diretor de uma empresa de consultoria em sustentabilidade, a Fábrica Éthica Brasil, Barontini afirma: “Agora a questão de sustentabilidade ambiental se confunde com a própria governança das empresas. De alguma forma, governar uma empresa de forma eficiente significa olhar para essa tríplice dimensão, a econômica, a ambiental e a social.”

Esse cenário conta, a partir deste mês, com um novo personagem, o cidadão comum. Como se viu, ele pode fazer doações a partir de R$ 1 para entidades que atuam em favor do meio ambiente, por intermédio da Bolsa de Valores Sociais e Ambientais (BVSA). “Eu vejo a Bovespa desempenhar um papel exemplar na disseminação desses valores, trazendo também o cidadão para mais perto das empresas”, diz Barontini.

“Com isso se conseguirá, de alguma forma, fortalecer as relações do cidadão comum com a Bovespa, aumentar a estima que ele tem pela organização, conduzi-lo a se aproximar e amanhã ser o comprador de ações negociadas em bolsa.” Considera essa realidade “muito importante, porque traz a questão ambiental, junto com a social, para o âmago do negócio”. A Bovespa, além disso, foi a primeira bolsa no mundo a aderir ao Global Compact, o Pacto Global das Nações Unidas,

Barontini trabalhava para a multinacional de consultoria Ernest & Young quando 166 países assinaram o protocolo de Kyoto, no Japão, em 1977 – com metas para reduzir a emissão de gases do aquecimento global, principalmente o gás carbônico. Em seguida, a empresa criou no Brasil um “time do carbono”. Participante do time, mergulhou de uma vez no tema, integrando, por cinco vezes, a delegação do governo brasileiro nas conferências de Kyoto. Há três anos, junto com sócios, constituiu a Fábrica Éthica Brasil.

O trabalho da Éthica evidencia a importância da questão ambiental nas empresas. Consiste em propiciar a incorporação de valores sociais e ambientais ao planejamento estratégico de empresas. A ação envolve duas diretrizes: a das finanças sustentáveis e das mudanças climáticas. “A idéia de finança sustentável é incorporar os valores sociais e ambientais no modelo de gestão das instituições financeiras, sejam elas bancos, fundos de pensão, seguradoras.”

A questão do clima destina-se a criar ‘uma visão de futuro’. “Aproveitar oportunidades lá na frente, que possam melhorar o rendimento e também a valorização acionária das empresas.” Como? Barontini diz que há empresas desenvolvendo, hoje, linhas de produtos ou serviços com baixa intensidade de emissões de gases do efeito estufa. Quando esses produtos “chegarem à prateleira do supermercado”, os consumidores informados sobre os problemas ambientais vão dar preferência a eles.

Um dos clientes de Barontini e seus sócios, a fabricante de cosméticos Natura, contratou-os para criar uma política voltada para os problemas climáticos. O trabalho iniciou-se com o inventário das emissões de gases poluentes. “Mapeamos toda a cadeia, desde o fornecimento de matéria-prima e a logística, à distribuição dos produtos.”

A Natura distribui seus produtos através de 500 mil pessoas, chamadas consultoras, que atuam em todo o País e até no exterior. “E os produtos têm que chegar às mãos dessas pessoas.” Feito o mapeamento, conta Barontini, a empresa anunciou que pretende abrandar suas emissões de gases poluentes até 2008. O trabalho revelou que 80% das emissões se relacionam com ingredientes e embalagens. Os restantes 20%, à fabricação e ao transporte.

A Éthica integra o Carbon Disclosure Project (relatório de informações sobre carbono), um projeto mundial que existe há cinco anos e chegou ao Brasil no ano passado. Grandes empresas respondem a questionários preparados por Barontini sobre os cuidados que tomam na área ambiental. As respostas orientam investidores, como fundos de pensão e bancos. “Se eu sou um fundo de pensão e estou colocando dinheiro em uma empresa, quero saber qual é a visão dessa empresa sobre mudança climática. Se ela estiver inerte, corro o risco de perder dinheiro no longo prazo. Caso contrário, poderei eventualmente ter ganhos.”

No ano passado, de 50 empresas consultadas, só sete não se manifestaram. Este ano, os questionários foram mandados para 60 empresas. “Queremos trazer a Bovespa para perto desse projeto, porque essas são as maiores empresas brasileiras cotadas na Bolsa.”

Empresas que se preocupam com o meio ambiente, como a Natura, naturalmente se aproximam do Índice de Sustentabilidade Empresarial da Bovespa. “O questionário do ISE tem as dimensões econômica, de governança e ambiental e social. Quem não tem respostas para essas questões não entra no ISE”, nota Barontini. Além disso, “o ISE tem um desempenho um pouco melhor em relação ao índice Bovespa”. Ou seja, se “eu já tenho boas políticas, isso se repercute na confiança, na credibilidade, nos arquivos intangíveis e acaba gerando valor depois na valorização acionária”.

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