Histórias de Bolsa
Sonho e realidade

Seis anos atrás, a Bolsa cumpria os primeiros passos do programa de popularização do mercado acionário. Eram tempos difíceis e o índice Bovespa fechara o semestre em 14,5 mil pontos (contra 50 mil, hoje), com queda de 12,9% em 12 meses. O ambiente internacional era muito menos favorável do que o atual, sofrendo os rescaldos da queda das ações de tecnologia negociadas na Nasdaq. Uma edição especial da Revista Bovespa (setembro de 2001) tratou das pessoas que participavam direta ou indiretamente da renda variável como acionistas, cotistas de fundos mútuos ou do FGTS, e ainda como associados de entidades fechadas e abertas de previdência privada. Estimou-se que o número total de investidores pessoas físicas chegasse a 18 milhões – e é certo que essa quantidade cresceu desde então.

Edição Especial de 2001
Milhões de investidores em ações.

Um dos textos publicados na época, assinado pelo sócio da consultoria Tendências e ex-ministro da Fazenda, Mailson da Nóbrega, foi profético. Sob o título Mercado de Ações: o Brasil pode repetir os EUA, mostrou que “nenhum país se beneficiou tanto do mercado acionário como os EUA e poucos cuidaram tão bem dele”. Deu ênfase à legislação que criou a Securities and Exchange Comission (SEC), em 1933, obrigando “as companhias abertas a dizer a verdade a respeito dos seus negócios, dos papéis oferecidos ao público e dos riscos envolvidos no investimento” e defendeu a educação dos investidores.

Mas o Brasil, alertou o economista, não alcançaria esse estágio em curto prazo, pois o quadro era “desolador”. Havia, porém, sinais promissores. A CPMF sobre operações em bolsa já era malvista na Fazenda (e acabou eliminada, o que significou um grande estímulo ao mercado de ações). “Estamos formando, quase silenciosamente, uma sólida base de investidores institucionais”, escreveu Mailson, antes de concluir o texto: “O caminho é difícil, mas é possível sonhar com um futuro não tão distante no qual, guardadas as devidas proporções, o Brasil reeditará o êxito americano no mercado de ações”.

A conjuntura atual mudou muito, para melhor. Nos Estados Unidos e no Brasil, nos países desenvolvidos e emergentes, os mercados acionários apresentam bons resultados e, apesar das cotações recordistas, predomina o sentimento de otimismo com a economia mundial – o que, em última análise, é o sustentáculo dos preços dos ativos.

Em 2001, o ex-ministro acreditou na força das ações – e acertou –, como evidenciam os recordes deste ano. Não se trata, agora, de prever altas contínuas, mas de constatar que a transparência está em alta, cresce o interesse pela boa governança e pelo ingresso das companhias no Novo Mercado e a Bolsa cumpre um papel educativo dos investidores, além de ajudar a capitalizar as companhias. Em resumo, como anteviu Mailson, no mercado acionário diminuiu a distância entre Brasil e Estados Unidos.

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