Mulheres em Ação
Dinheiro para todos crescerem
Miriam Scavone

Nos idos de 1976, um banqueiro de Bangladesh ousou fazer um empréstimo que destoava de toda a prática do sistema financeiro privado. Sem avaliar riscos ou cobrar juros compatíveis com a alta possibilidade de um calote, ele emprestou o equivalente a 26 dólares a 42 mulheres que confeccionavam cadeiras de bambu e não tinham capital para comprar a matéria-prima necessária para desenvolver o negócio. Surpreendentemente, elas não só conseguiram reativar a fabricação como devolveram, centavo por centavo, o que tinham recebido.

Esse banqueiro chama-se Muhammad Yunus, economista de 65 anos que se tornou Prêmio Nobel da Paz de 2006, devido à sua excepcional política de abertura de linhas de microcrédito, para diminuir a pobreza no país. Essa política nasceu com a feliz experiência feita com as artesãs do bambu, que o levou a criar, em 1980, o Banco Grameen, só para oferecer crédito a pessoas de baixa renda que jamais conseguiriam recursos em instituições financeiras tradicionais. As mulheres bengalesas da zona rural, que são prioridade, recebem 98% dos empréstimos. “Quando você coloca dinheiro na mão de uma mulher, a economia do país gira, as crianças estudam, a família progride”, comentou Yunus, por ocasião da entrega do Nobel. “É a melhor aplicação que um banco pode fazer.”


Num plano geral, trata-se da mesma mulher que já foi definida como despreparada para lidar com dinheiro, incapaz de administrar finanças, consumidora compulsiva, sem talento para gerir cifrões. O que leva a duas possibilidades de explicação: ou mudaram as mulheres, ou a sociedade começou a olhar – e a enxergar – melhor a forma como o sexo feminino lida com dinheiro. “Na verdade, acredito que aconteceram as duas coisas”, explica a consultora de finanças pessoais Sandra Blanco, coordenadora do site Mulherinvest. “No passado, havia mulher que mal sabia qual era a renda da família, tudo ficava nas mãos dos homens, elas no máximo recebiam um dinheirinho para as necessidades da casa”, diz. “Mas, a partir do momento em que foi para o mercado de trabalho, ela começou a lidar com o dinheiro e a descobrir, dia a dia, formas melhores de utilizá-lo para promover o bem de todo o grupo.” Sandra frisa que aí pode estar a maior diferença entre a forma como o homem e a mulher gerem o dinheiro: a mulher quer renda para que toda a família tenha uma vida melhor, para que o futuro seja mais tranqüilo. O homem é mais especulador e, de forma geral, pensa no sucesso econômico como uma vitória pessoal.

Minha empresa, minha casa – Mesmo em tempos antigos, nunca se duvidou da capacidade da mulher de gerir com sabedoria o dinheiro da casa, aquele usado para comprar alimentos, roupas, pagar as contas. Tanto que, apesar de administrar os investimentos, de ter o controle dos maiores montantes nas mãos, muitos maridos, mesmo há uma ou duas gerações, já entregavam à mulher o dinheiro para os gastos do dia-a-dia. O motivo era um só: elas conheciam as necessidades da casa, sabiam fazer a divisão dos gastos e, com isso, promover a qualidade de vida e a satisfação de toda a família.

Essa habilidade foi transposta para o mundo do empreendedorismo. “As mulheres tendem a ser mais conservadoras, mais responsáveis que o homem em relação a dinheiro, especialmente quando têm filhos para criar”, opina o economista Mauro Halfeld, comentarista de finanças pessoais da rádio CBN e autor do livro Seu Dinheiro. “Além disso, ela é menos especuladora, tem visão de longo prazo e é muito mais humilde para aprender a gerir cada vez melhor o dinheiro que ganha.”

Essas características levam instituições de microcrédito a ter mais boa vontade na hora de emprestar dinheiro para as mulheres, porque sabem que elas vão andar a passos mais lentos que os homens, mas com maior probabilidade de não precisar parar no meio do caminho. Segundo os últimos estudos, já existem 5,5 milhões de mulheres empreendedoras no Brasil com negócios em estágio inicial (de até três anos e meio de existência). Segundo dados da pesquisa Global Entrepreneurship Monitor (GEM), o empreendedorismo feminino do Brasil é o décimo mais atuante no mundo, com taxa de 9,61% das entrevistadas. As brasileiras desbancaram países como França (2,53%), Suécia (2,43%), Eslovênia (2,29%), Bélgica (1,04%) e Emirados Árabes (0,29%). Elas atuam, especialmente, em áreas de serviços, e, assim como os homens empreendedores do País, não tocam negócios inovadores. Mas estão conseguindo sucesso e ascensão econômica.

Para Clarice Veras, coordenadora do Prêmio Sebrae Mulher Empreendedora de 2006, é nítido o jeito feminino de empreender. “A mulher cria laços afetivos, promove o trabalho em equipe, quer todos crescendo com ela”, observa. “Por isso, encontramos diversos empreendimentos femininos que envolvem cooperativas, trabalhos em grupo e a promoção de causas sociais.” É preciso levar em conta, ainda que boa parte dessas mulheres são chefes de família e apostam todas as fichas nesses negócios, porque deles depende a vida de muitas pessoas. Quem comprova isso é a empresária Gabriella Icaza, diretora presidente do Banco Nacional da Mulher, no Rio de Janeiro, que já emprestou dinheiro a mais de 40 mil mulheres desde 1984. “O grau de inadimplência é baixíssimo e sempre vejo elas crescerem em seus pequenos negócios e conseguirem ter uma casa decente, dar estudo para os filhos”, comenta. “Para a grande maioria das mulheres, esse é o melhor uso que se pode fazer do dinheiro.”

 
Saadia Zahidi
Saadia Zahidi

No Brasil, terreno fértil para igualdade de gênero

A economista paquistanesa Saadia Zahidi, coordenadora do Programa de Mulheres Líderes do Fórum Econômico Mundial, em Davos, na Suíça, encanta a todos por onde passa. Alta, magra, morena, chama a atenção tanto pela beleza quanto pela juventude – tem apenas 25 anos. Mas nada se compara à inteligência e à assertividade ao falar de seu tema favorito: a necessidade de dar um fim à desigualdade de gênero no mundo. Ela conhece bem o assunto. Afinal, foi uma das líderes do Global Gender Gap 2006, levantamento publicado no final do ano passado que mostra como anda a igualdade de gênero em 115 países do mundo, com base em quatro pilares: acesso à educação, à saúde, aos quadros políticos e a oportunidades de carreira.

Saadia esteve no Brasil, em março, especialmente para participar do 3º Fórum Mulheres em Ação, que abordou o tema “A Mulher e o Trabalho”. Antes de subir ao palco e brindar a todos com seu conhecimento, ela concedeu uma entrevista exclusiva à Revista Bovespa, na qual falou sobre o estudo, opinou sobre a situação brasileira e contou como superou as limitações que a cultura e o fanatismo religioso de seu país poderiam lhe impor.

Você já conhecia o Brasil?

— Sim, meu namorado é brasileiro e eu até arrisco falar português, porque estudei essa língua e pratico bastante. Além disso, me interesso muito pelas características daqui: a mistura de raças, a diversidade, a abertura para o novo, a natureza impressionante. É realmente um país do futuro.

No levantamento sobre a igualdade de gênero que você liderou, o Brasil ficou em 67º lugar no ranking. O que isso significa?

— Significa que, comparativamente às demais nações, o Brasil está exatamente no meio do caminho. Nem tão bem, nem tão mal. Isso faz todo sentido porque, curiosamente, as nações mais desenvolvidas ficaram com os melhores resultados e as mais pobres, com economia desorganizada, foram as lanterninhas. O Brasil é um país emergente, que ganha espaço a cada dia e avança também no quesito da igualdade de gênero. Mas tem ainda muito a percorrer e precisa se esforçar para dar exemplo, porque é uma nação que cria tendências em toda a América Latina.

Isso significa que a igualdade de gênero está relacionada, de certa forma, à performance econômica do país?

— Nós, do Fórum Econômico Mundial, acreditamos muito nisso. Todas as populações são formadas por homens e mulheres e nenhuma economia utiliza totalmente seu potencial humano quando estabelece entre os sexos diferenças salariais, de possibilidades de crescimento profissional, de educação. Não é por acaso que as nações mais desenvolvidas possuem menor disparidade de gênero. Se a mulher ganha menos, tem educação de pior qualidade, não recebe incentivos para crescer profissionalmente, ela representa um potencial desperdiçado. Isso certamente tem conseqüências na economia do país como um todo. O problema é que as desigualdades de renda e as raciais são reconhecidas e combatidas no mundo todo, mas de gênero muitas vezes não são levadas em consideração. E elas são uma enorme barreira para o desenvolvimento.

As diferenças são muito mais marcantes nos países em desenvolvimento?

— A desigualdade é geral, está em absolutamente todos os países, só que em maior ou menor grau. Ela transcende as fronteiras das religiões, das culturas, das classes sociais. Acho chocante, por exemplo, saber que em nações avançadas, como os Estados Unidos, as mulheres ainda não tenham conseguido a participação igualitária nos postos-chave do Legislativo, Executivo e Judiciário. Espera-se isso de países mais atrasados, não é? Mas essa é a realidade. Especialmente quando falamos de oportunidades de carreira e participação nos quadros políticos.

O que mais chamou sua atenção no estudo?

— O fato de que absolutamente nenhum país atingiu o índice total de igualdade. Mesmo a Suécia, que está anos-luz à frente da imensa maioria, ainda peca no quesito igualdade salarial e participação política. Lá, a mulher ainda recebe 71% do salário de um homem na mesma posição da carreira. Mas, ao mesmo tempo, fiquei feliz ao ver que a diferença na saúde e na educação está bem perto de terminar. De modo geral, já se chegou a um índice de igualdade de 90% nestes quesitos.

Se a mulher tem mais acesso à educação, não está também com mais oportunidades profissionais e ganhando mais?

— Nem sempre. Infelizmente, em muitos países, essa educação não dá o retorno que se espera. Para a grande maioria das mulheres, ainda que tenham um ótimo nível educacional, surgem poucas oportunidades profissionais com bons salários e reconhecimento, que realmente a levem a ascender social e economicamente. O teto de vidro continua firme.

O país onde você nasceu ficou com a 112ª posição no ranking geral, é um dos últimos. Como você vê esse resultado?

— Com tristeza, porque sei que ser mulher lá é muito difícil. Sou muçulmana e afirmo que é absolutamente equivocada a interpretação do Alcorão que prega a submissão da mulher. O islamismo prega o amor, sempre foi acolhedor, nunca subjulgou ninguém. Mas os governos de certos países fazem questão de impor esse estilo tão nocivo às mulheres. Por outro lado, fiquei feliz ao ver que no quesito participação política o Paquistão ficou com a 37ª posição. Isso se deve muito a uma lei de cotas que reserva cadeiras para mulheres no Legislativo. Com isso, o Paquistão ficou melhor que os Estados Unidos, na 66ª posição, ou o Japão, na 83ª.

Ou o Brasil, na 86ª...

— É verdade. E fiquei sabendo que isso se deve, também, à falta de mulheres que aceitem concorrer aos cargos políticos. Pelo que me disseram, elas sofrem preconceito até dos colegas em seus próprios partidos. Parece que algumas casas legislativas do país nem sequer tinham banheiro feminino até pouco tempo atrás. Mas isso vai mudar, com certeza.

Por que você saiu definitivamente de seu país?

— Porque meus pais resolveram que seria melhor eu fazer o colégio na Inglaterra e, quando eu voltei, fiquei aterrorizada. Eu era uma adolescente, queria estudar, tinha tantos planos. Mas percebi que todos me viam como mulher. E mais: esperavam que me casasse em breve com alguém arranjado, como acontece com todas, para ser boa mãe e esposa. Minha família, felizmente, queria algo maior para mim. Lembro de papai dizendo: “Saadia, prefiro que você viva longe de nós a ter um futuro tão triste como esse.” Eu agradeço muito aos meus pais, porque fui estudar economia e consegui um posto em uma das instituições mais admiráveis do mundo.

Você acredita que o Brasil tem um terreno fértil para a igualdade de gênero?

— Com certeza, porque aqui não há barreiras culturais tão sólidas como as dos países do Oriente Médio, por exemplo. Existe uma tradição machista que aos poucos vai enfraquecendo. Eu nunca tinha visto, por exemplo, tantos outdoors e promoções em lojas para festejar o Dia da Mulher. Fiquei encantada!

 
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