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Companhias aderem à transparência e aos novos níveis de governança da Bovespa
A adesão à governança corporativa ganha velocidade. O mercado mal teve tempo de comemorar, em fevereiro, a marca de 100 empresas participantes dos diferentes segmentos de governança da Bovespa nos cinco anos desde a primeira adesão ao Novo Mercado e no dia 2 de maio esse número já tinha crescido 15%, ou seja, 115 companhias já faziam parte desses segmentos – 62 no Novo Mercado, 15 no Nível 2 e 38 no Nível 1. Esse crescimento é um dos pilares de sustentação do mercado a longo prazo e já mostra crescente importância para o setor: os níveis de governança representaram, no final de abril, 59,4% do valor de mercado, 58,2% do volume financeiro e 67,4% da quantidade de negócios no mercado à vista da Bovespa. E o Índice de Ações com Governança Corporativa Diferenciada (IGC) teve alta de 424% entre sua criação, em janeiro de 2001, e o final de fevereiro de 2007, em comparação a uma valorização de 202% do Ibovespa, no período.
“Não há notícia de um ciclo de adoção de governança com essa intensidade no mundo, em tão curto espaço de tempo”, afirma José Monforte, presidente do Instituto Brasileiro de Governança Corporativa (IBGC).
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| Fábio Chaddad, do Ibmec |
| O Brasil largou na frente |
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Na mesma linha, Fábio Chaddad, professor do Ibmec-São Paulo, assinala que “o Brasil largou na frente e mantém posição de destaque na governança”. Ele recorda que outros países, como China e Índia, passaram nos últimos anos a dar importância ao assunto, mas o mercado brasileiro foi o que melhor assimilou – e com maior rapidez –, a importância desse conceito.
O desenvolvimento da governança no mercado brasileiro já é reconhecido no exterior. A International Finance Corporation ( IFC), do Banco Mundial, e a Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE) destacaram oito empresas brasileiras como casos de sucesso em governança corporativa: CCR, CPFL Energia, Embraer, Marcopolo, Natura, Net, Suzano e Ultrapar.
A relevância da governança é cada vez mais percebida não só pelas empresas, mas também pelos investidores. Geraldo Soares, presidente do Instituto Brasileiro de Relações com Investidores (Ibri), assegura: “É impensável, atualmente, entrar no mercado de capitais sem aderir aos níveis de governança. Quem pensar em fazê-lo será penalizado, entre outros pontos, na precificação, porque o investidor já dá importância vital para a governança antes de decidir em que ação vai aplicar”.
Para Gilberto Biojone, diretor superintendente da Associação Nacional de Corretoras de Valores, Câmbio e Mercadorias (Ancor), “a governança já é uma demanda dos investidores”, opinião compartilhada por Fábio Spínola, diretor do setor de fundos de renda variável da Quest, gestora independente de recursos financeiros.
Para as empresas, o crescimento da governança também está associado a bons resultados. Dados sugerem que o lucro das companhias que aderiram às práticas de boa governança tende a superar o das empresas menos atentas à necessidade de transparência, segundo levantamento da publicação Anuário Análise, que cruzou os números de 294 companhias abertas. A rentabilidade sobre o patrimônio das empresas que adotaram a governança, conforme o estudo, foi de 16,4% no período de 12 meses terminado em setembro de 2006, contra 4% das menos empenhadas em mostrar transparência.
Atenção do investidor – Dados como esse levam os investidores a considerar cada vez mais a governança na hora de tomar decisões de aplicação. “O investidor institucional já percebe que os papéis de empresas com governança têm performance diferenciada”, afirma Spínola, explicando: “Essa percepção ganha força também entre os investidores individuais, tanto que a maioria dos lançamentos de ações já vem do Novo Mercado. Se não houver essa opção, a empresa não é bem aceita”.
O aumento da importância da governança aconteceu ao mesmo tempo que crescia com rapidez o número de investidores pessoas físicas na Bovespa. Em 2001, esses aplicadores somavam 75 mil, número que quase triplicou, atingindo 219.500, no ano passado, chegando a 245 mil em março de 2007. A quantidade de clubes de investimento também aumentou em escala geométrica no período, de 457 em 2001 para 1.631 em 2006, atingindo 1.656 até janeiro. Também houve crescimento significativo do número de lançamentos iniciais de ações (IPOs). Foram sete operações desse tipo em 2004, nove em 2005, 26 em 2006, sete nos primeiros dois meses deste ano e em abril foram registrados 11 pedidos na Comissão de Valores Mobiliários (CVM).
Não se pode afirmar que o aumento do número de investidores e do lançamento de ações se deveu exclusivamente à governança, mas não há dúvidas de que há uma forte relação entre os dois fatores. “Os investidores passaram a exigir informações sobre governança”, conta Soares, também superintendente de Relações com Investidores do Banco Itaú. Em abril, ao fazer uma apresentação em Uberlândia (Minas Gerais) sobre os resultados do banco, Soares recebeu várias perguntas sobre a adesão do banco à governança: “Hoje, todos os que operam no mercado querem saber sobre o assunto”.
Esse quadro se fortalece, avalia Biojone, porque aderir aos segmentos de governança valoriza as ações: “As empresas que optaram pela transparência têm desempenho superior às demais. Por isso, a governança passou a ser uma demanda dos investidores e uma vantagem para as companhias”.
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Pano de fundo – O salto da governança acompanha também o fortalecimento das empresas privadas e dos fundamentos macroeconômicos, avalia Chaddad. Para ele, com o processo de privatização iniciado nos anos 1990 passou-se a dar maior importância à transparência, principalmente porque a maioria das empresas estatais que venderam seu controle dava atenção limitada ao assunto. Os novos controladores dessas companhias sentiram a necessidade de ter transparência, o que criou ambiente favorável à governança. “Cresceu a atenção com os acionistas minoritários, por exemplo, e com a importância de mostrar seus dados”, afirma. “A privatização ajudou a sinalizar a importância da governança.”
Nos últimos anos, recorda Chaddad, ganharam força os fundos de investimento e os de pensão, que têm gestores cada vez mais comprometidos com a transparência para seus cotistas, demandantes de resultados cada vez melhores propiciados por empresas comprometidas com a abertura de informações. Além disso, com o início do ciclo de privatizações na Inglaterra, nos anos 1980, e as crises da Rússia e de países asiáticos, na segunda metade dos anos 1990, aumentou a demanda dos investidores por proteção, num movimento que cresceu após a derrocada de corporações como a Enron, dos Estados Unidos. O investidor ficou mais sensível aos benefícios da governança. O professor do Ibmec observou: “Foi-se criando um cenário favorável à transparência que, no Brasil, ganhou velocidade impressionante. Na crise asiática, o Fundo Monetário Internacional (FMI) incluiu a governança entre as condições para ajudar países da região. No Brasil não houve necessidade de exigências – o País adotou a governança por conta própria, via mercado e investidores”.
Monforte destaca a importância da estabilidade monetária para o salto da governança: “A estabilidade abre a possibilidade de um ciclo de desenvolvimento sustentável e, em conseqüência, leva as empresas de volta ao planejamento estratégico com uma perspectiva de tempo mais longa. Nesse novo cenário, a avaliação criteriosa das fontes de financiamento ganha importância fundamental. O mercado de capitais passa a ser visto como uma alternativa e, para a empresa conseguir capital a custo mais baixo, a adoção da boa governança é fundamental”.
Nesse cenário favorável, a transparência se tornou cada vez mais valiosa. Levantamento do Instituto Nacional de Investidores (INI) mostrou que, entre os critérios mais importantes para comprar uma ação, 24% dos aplicadores apontaram a confiança na empresa como o fator decisivo da tomada de decisão. “Foi o segundo item mais votado e mostra a percepção clara da importância da governança”, afirma Theo Rodrigues, diretor-geral do INI. “O investidor só confia em uma empresa se ela for transparente. Por isso, as pesquisas do instituto mostram que o aplicador valoriza cada vez mais a governança.”
Segundo Chaddad, o investidor está cada vez mais consciente quanto à necessidade de transparência. “Atualmente, o aplicador antes de comprar uma ação faz perguntas: por que vai comprar um papel sem tag along? Por que vai adquirir uma ação que não dá direito a voto, sem proteção e transparência? Ele tem mais alternativas no mercado e prefere as empresas que lhe dão mais segurança e transparência.” Percepção semelhante alcança as empresas. “Os empresários estão conscientes de que o custo de capital será mais elevado como reflexo da governança insuficiente, porque nesse caso há menor confiança nas companhias”, lembra o professor do Ibmec.
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| Gilberto Biojone, da Ancor |
| Investidores demandam governança |
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Outro dado que mostra a evolução da governança é citado por Biojone: até há pouco, as ações preferenciais, que não dão direito a voto, correspondiam a dois terços dos papéis e atualmente mal chegam à metade do total. “Dessa forma, o mercado brasileiro de capitais mostra que está subindo de patamar, chegando rapidamente a um nível mais adequado em comparação a outros países.”
Soares confirma: a preferência por ações ordinárias é cada vez maior, o que se comprova com a redução da diferença de preço entre esses papéis e os preferenciais: “O investidor está educado em relação à governança e por isso dá preferência às ações ordinárias”.
Outro efeito positivo da adesão à governança surgiu com a pulverização do capital adotada por empresas listadas na Bovespa. Os níveis de governança, que alinham os interesses dos acionistas minoritários aos dos majoritários, têm sido aliados também em relação aos cuidados necessários para proteção no caso de empresas de capital disperso.
Tendência de crescer – A adesão à governança tende a crescer nos próximos anos. Os investidores que aderem ao mercado de capitais aliam-se aos que já estão na Bovespa nas exigências quanto à governança, diz Chaddad. Grandes corporações brasileiras, como Vale do Rio Doce, Embraer e AmBev estão atreladas a padrões cada vez rígidos de transparência – uma demanda dos mercados externos.
Monforte também prevê maior demanda por governança: “Há ainda um grande número de empresas que deve aderir à Bovespa, além de companhias já listadas, que tendem a optar pelo Novo Mercado. É um movimento natural, já que as empresas que adotaram a boa governança têm merecido a atenção dos investidores e conseguem prêmios para os seus papéis. A governança dá maior segurança ao investimento e sua adoção é feita em geral por empresas bem geridas”. Spínola e Soares têm opiniões semelhantes, dado o crescente interesse do investidor pessoa física pela transparência.
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À medida que a governança avança, as empresas criam estruturas para perenizar as boas práticas. Soares assinala: “Esse processo já pode ser observado em várias companhias, que montam comitês de auditoria, fiscal, de divulgação e negociação e de responsabilidade socioambiental”.
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