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É tempo de fazer o dever de casa
O Brasil, estimulado pelo ambiente internacional e pelos avanços internos nos últimos anos, vive um momento econômico ímpar. O crescimento deve aumentar este ano, a inflação está baixa e sob controle, os juros continuam caindo, o balanço de pagamentos e as reservas externas nunca estiveram tão bons. Porém, não há bonança que dure para sempre. É exatamente por isso que o País deveria avançar mais no ajuste das contas públicas e nas medidas de longo prazo, como a reforma da Previdência Social, recomenda o economista Ilan Goldfajn, ex-diretor de Política Econômica do Banco Central (2000-2003). “É o momento ideal para criar benefícios sustentáveis. E não vejo ninguém pensando em reformas”, afirma. Como os ciclos econômicos ainda não foram abolidos, em algum momento nos próximos anos haverá uma reversão de expectativas e somente os países com fundamentos mais sólidos poderão atravessar um eventual período recessivo sem sofrer tanto, argumenta.
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| Ilan Goldfajn |
| “A carga tributária é o fruto do pecado original dos gastos” |
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Doutor em Economia pelo Massachussetts Institute of Technology (MIT), Goldfajn continua ligado à vida acadêmica. É professor e pesquisador de macroeconomia e finanças internacionais na Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro (PUC-Rio), onde fez mestrado, e diretor do Instituto de Ensino e Pesquisa em Economia da Casa das Garças (Iepe/CdG), um think tank criado por economistas que ajudaram a acabar com a hiperinflação no Brasil, como André Lara Resende, Edmar Bacha, Pérsio Arida (autores do Plano Real), Pedro Malan e Armínio Fraga. Mas é no mercado financeiro que o ex-diretor do BC gasta a maior parte do seu tempo. Este ano, deixou a Gávea Investimentos, de Fraga, onde trabalhou desde 2003, e montou a Ciano Investimentos, uma companhia de gestão de ativos que já administra R$ 450 milhões. O Brasil está menos vulnerável, observa. Sobre a boa fase do mercado acionário, que já dura um pouco mais de quatro anos, Goldfajn acredita que o melhor já passou. É otimista, mas recomenda cautela. “A Bolsa vai continuar crescendo, mas o ritmo vai ser outro”, afirma nesta entrevista exclusiva à Revista Bovespa.
Qual é sua avaliação do atual momento econômico no Brasil?
— É um momento bom, dominado principalmente pelo cenário mundial favorável. Há muito tempo não tínhamos tanta prosperidade, um período tão longo de otimismo, de liquidez. No entanto, acho que a maior parte dos ganhos já ficaram para trás.
Que tipo de ganhos ficaram para trás?
— Os ganhos econômicos. Nos Estados Unidos, a produtividade começa a se desacelerar de forma razoável, devido ao mercado imobiliário. Portanto, os benefícios que observamos hoje talvez não sejam permanentes. Os próximos dois ou três anos talvez não sejam tão bons como foram os últimos dois ou três anos. O Brasil se beneficiou bastante neste período por causa da emergência da China, que nos ajudou bastante. A China demanda o que a gente produz e cresce 10% ao ano. É nossa concorrente, mas menos do que muitos outros países.
O bom desempenho econômico do Brasil está atrelado ao da China?
— Ao da China, dos Estados Unidos e até da Europa. O Brasil fez o dever de casa nos anos do governo Fernando Henrique e nos primeiros quatro anos do governo Lula. Com o ministro da Fazenda Antônio Palocci, manteve o superávit fiscal, fez algumas reformas microeconômicas, reforçou instituições. Desde 1999, mas com mais força a partir de 2001, começou a virada externa que ajudou o nosso balanço de pagamentos. Então, o Brasil se beneficiou da economia mundial e fez algumas coisas melhor do que outros países. Se tivesse feito mais, estaria crescendo muito mais do que está.
Se os próximos anos não forem tão bons como os últimos, existem riscos de reversão de ganhos, de uma crise maior? Afinal, os ciclos econômicos ainda não foram abolidos.
— Estamos virando a curva. Os riscos estão começando a ficar maiores e os benefícios, menores. Mas isso não significa que (a bonança) vá acabar amanhã. Mas a combinação risco/retorno, de uma perspectiva probabilística, ficou diferente.
Há dois meses, a Bolsa no Brasil e em vários países foi muito afetada por temores com relação à China. Ainda somos muito vulneráveis ao ambiente externo?
— Com certeza. Nós e todo o mundo. A pergunta é: qual é o grau de vulnerabilidade? Países como a Argentina são muito vulneráveis. A Turquia também vai ter um pouco mais de problemas. A Venezuela vai ter muitos problemas, o Equador também. Em vários países, o ciclo econômico vai ter um efeito devastador, absolutamente determinante. Se a economia mundial estiver muito bem, eles vão bem. Se tiver algum recuo, eles vão muito mal.
E o Brasil, como fica?
— O Brasil está bem melhor do que estes países. Mas está pior do que outros. Ainda continuamos com uma carga tributária muito alta. Esta carga não existe à toa. É fruto do pecado original, o gasto público. Não fizemos nada sobre isso nestes anos bons. Os gastos têm crescido 7% a 8% em termos reais nos últimos anos. Isso só é possível porque temos uma economia muito favorável, com a economia brasileira e a mundial crescendo. Poderíamos estar aproveitando este período para fazer o corte de gastos. É melhor fazer isso num momento em que há folga, como hoje. O pior do mundo é ter de começar a cortar quando começar a faltar receita. E é isso que vai acontecer.
O governo Lula anunciou o Programa de Aceleração do Crescimento (PAC) há mais de 100 dias. Desde então, foram investidos somente R$ 1 bilhão dos R$ 15 bilhões previstos. O PAC terá algum impacto efetivo no crescimento?
— A aceleração do crescimento será feita com a realocação dos gastos correntes em direção ao investimento em infra-estrutura. Nessa área, o setor privado tem mais dificuldade de atuar, porque envolve o setor publico e a burocracia. Se o governo conseguisse realocar gastos para a infra-estrutura e desonerar a folha, desonerar impostos, iria contribuir ao máximo para o crescimento. Muitas coisas já foram encomendadas. Mas o governo tem feito um PDC, um programa de desaceleração do crescimento.
Por quê?
— Porque tem aumentado o salário mínimo de uma forma enorme. Tem aumentado os gastos da Previdência, os gastos correntes. Em vez de aumentar, tem reduzido a margem para fazer coisas boas.
O aumento do salário mínimo não é benéfico para o consumo, para a distribuição de renda?
— Na realidade, não. Existem formas melhores de se fazer isso. Estamos distribuindo recursos em direção à Previdência, é uma distribuição dos jovens para os aposentados. Se isso é benéfico ou não, a gente pode ver. Mas eu preferia estar distribuindo para as crianças, para o nosso futuro.
Ao separar contabilmente os gastos da Previdência dos investimentos sociais, o governo alegou que o problema do déficit é menor que o imaginado. A situação é melhor?
— Não. É só uma aritmética. Sabe a brincadeira de empurrar os montinhos? Tem um montão. Vai fazer dois montinhos e aí parece menor. O problema continua. Nós temos uma sociedade que está envelhecendo. Ainda somos uma sociedade muito jovem e, em vez de gerar superávit, já temos déficit. Na Europa todo mundo tem déficit, mas lá a sociedade é muito mais velha, desenvolvida e madura. Aqui, o governo tinha uma forma de resolver isso: a reforma da Previdência. Temos hoje um governo extremamente popular, que deveria usar esta popularidade para algo que venha a dar algum benefício para a sociedade nos próximos 10 ou 20 anos.
Na prática, quanto o governo deveria reduzir em seus gastos para criar um efeito benéfico de longo prazo?
— Não falo em reduzir, bastaria estabilizar os gastos. Se as despesas não crescessem mais do que a inflação, haveria ganhos em termos reais. E o que o governo fez? Depois de uma discussão longa, concluiu que não haverá um teto para as despesas. Mas criou subtetos e amarrou os gastos ainda mais. Na prática, reindexou o salário mínimo e as despesas com os funcionários. Se estancasse os gastos e eles caíssem em termos reais em relação ao PIB, a carga tributária seria menor. Isso daria para fazer.
O real está bem apreciado e a cotação em relação ao dólar voltou à casa dos R$ 2,00. O Banco Central interveio e chegou a comprar US$ 4 bilhões em uma única semana. Isso é bom? Com o diferencial dos juros internos e externos, essa política tem um custo fiscal elevado e, mesmo com as intervenções, nenhum governo consegue controlar o câmbio totalmente.
— O governo, ao contrário do que disseram muitos jornais, não está desperdiçando ativos. Está acumulando. O benefício dessa política de acumulação de reservas é estar, de certa forma, investindo no futuro. Qual é a alternativa à acumulação de reservas? É deixar o câmbio se apreciar de uma forma considerável no momento.
Mas isso já está acontecendo, não?
— Não. Se o Banco Central não estivesse intervindo, o real estaria muito mais apreciado. Não arrisco um número, há quem fale em cotações de R$ 1,70 a R$ 1,90 por dólar. É impossível não haver impacto no câmbio quando o Banco Central retira do setor privado US$ 100 bilhões, US$ 30 bilhões no semestre. A pergunta que devemos fazer é a seguinte: estaríamos dispostos a deixar o BC sair do mercado, a deixar o câmbio apreciar lá para baixo? Acho que não. Não devemos tomar como permanente uma parte da exuberância que estamos vivendo hoje. Esse excesso de liquidez mundial não será permanente. Uma parte deste dinheiro vai embora daqui a pouco.
Então é melhor ter um colchão de liquidez?
— Sim. Se o câmbio fosse para R$ 1,60, por exemplo, isso daria sinais equivocados para a economia. Haveria incentivos para os que querem importar ou viajar para Miami. E os exportadores sofreriam um pouco mais. Suavizar um pouco a apreciação cambial é prudente. É claro que tem outras coisas que poderiam ser feitas, que nada têm a ver com o BC. Como o enxugamento do Estado, que teria impacto nos juros.
Há espaço hoje para uma queda maior dos juros?
— Sim. A inflação está controlada. Há espaço para o juro continuar caindo, para acelerar o corte da Selic, saindo de 0,25 ponto porcentual para 0,5 ponto. Seria uma redução um pouquinho mais rápida. Mas o cerne da questão é que o juro no Brasil ainda vai ser mais alto do que no resto do mundo. Uma redução bem mais rápida deveria estar atrelada às reformas de Estado, do gasto público. A solução permanente envolve mexer nas coisas que não são fáceis.
Hoje, qual é o nível seguro para a queda da Selic?
— É difícil saber. Como diz a expressão, a prova será na hora de comer o pudim. Vai saber até reduzir, reduzir e a inflação começar a voltar.
Mas a batalha contra a inflação não está ganha?
— Essa batalha nunca está ganha. Pode-se reduzir os juros até a inflação mostrar os sinais. Hoje, os juros estão caindo e a economia está se recuperando. As vendas estão subindo 7%, 8% ao ano. É um nível alto. Venda é sinal de demanda. Então, o consumo está bem, o salário real está aumentando, o crédito está crescendo e a economia não está deixando de se expandir.
Como vê o risco de um pouso forçado da economia dos EUA?
— Não vejo a possibilidade de um hard landing. Mas basta um landing qualquer para afetar as bolsas internacionais. Acho que vai acontecer uma aterrissagem que não está embutida nas expectativas que sustentam os preços nas bolsas de valores do mundo todo.
O mercado acionário internacional vive uma bolha?
— Bolha, não. Euforia, sim. A bolha dá sinais de que vai aquecer para sempre. Mas há hoje uma certa euforia, uma tendência de achar que tudo que se lê e se vê é para o bem.
O Ibovespa superou a marca dos 50 mil pontos no início de maio. Mas a valorização dos ativos na Bovespa foi acompanhada de uma expansão muito forte do próprio mercado, com o lançamento de novas empresas, novos papéis. A captação aumentou muito e a Bolsa voltou a ser um veículo de financiamento para as empresas. Até que ponto esta revolução no mercado é sustentável?
— Quando há uma expansão da bolsa, é importante ver como os preços altos das ações se transmitem ao resto da economia. Não adianta a Bolsa subir se não houver algum impacto do lado real, da produção. A forma como esta transmissão ocorre é permitir o maior financiamento de empresas. E isso está ocorrendo, o que é benéfico. Tenho a impressão de que deveríamos estar caminhando mais devagar. Tem uma fila muito grande de IPOs (initial public offerings, lançamentos primários de ações), há muito financiamento vindo por aí. Temos de ter o discernimento do que é bom e do que é ruim. Existe muita coisa boa, mas temos de ter cuidado para não embarcar na onda de que tudo vale. Muitas empresas podem entrar no mercado mais pela liquidez e disponibilidade de financiamento do que por serem boas.
Como vê as perspectivas econômicas para 2007?
— Este ano, a inflação está mais perto de 3,5% do que de 4%. Isso é uma boa notícia para os juros. Vejo inflação controlada e juros em queda este ano e no começo de 2008. De certa forma, o mercado já antecipou isso. Os juros que são negociados, os mais longos já embutem uma queda boa. Isso tem impacto positivo na Bolsa. De fato, estamos retomando o crescimento este ano. O Brasil caminha para uma taxa de crescimento do PIB de 4%, 4,5%. Vivemos uma retomada boa. Não vejo sinais próprios de freios na economia brasileira, a não ser os externos, que são mais difíceis. A Bolsa vai continuar crescendo, mas o ritmo vai ser outro.
Qual é a probabilidade de haver um freio vindo lá de fora?
— O risco é mais alto do que as pessoas acreditam. Vou citar os mestres. Alan Greenspan (ex-presidente do banco central americano) fala em 30%. Larry Summers (ex-secretário do Tesouro nos Estados Unidos) diz que há 50% de risco de recessão. Estes números me parecem altos.
Como estará o Brasil em dez anos?
— Estou otimista, o futuro será melhor do que o presente ou do que o passado. Espero que seja com a economia em expansão. A tristeza é ver que não estamos fazendo tudo o que poderíamos fazer para melhorar o cenário.
Esta não é uma característica histórica do País? Está sempre aquém do potencial, dada a complexidade da sociedade, da estrutura partidária, da política.
— Aqui, a democracia impõe uma velocidade mais lenta do que em outros lugares. As mudanças são mais lentas. Por um lado, isso é ruim. Por outro, quando estamos indo para a direção errada, isso é bom. Na Argentina, por exemplo, as rápidas mudanças do governo Kirchner vão prejudicar muito o país. O fato de andarmos devagar nos ajudou agora com esta onda.
O Brasil está descolado do cenário populista da América Latina?
— O Brasil está indo na mesma direção populista, mas com instituições mais fortes. Aqui, o pragmatismo acaba imperando, as negociações políticas, os partidos, os diferentes interesses acabam não permitindo aventuras a la bolivarianas. Essa revolução não vai chegar por aqui.
O que sustenta o populismo latino-americano?
— Hoje não há política econômica equivocada. Todo o mundo faz de tudo e tudo dá certo. Na Venezuela, o Chávez faz estripulias e ainda sobra dinheiro. Na Argentina, o Kirchner está mexendo em índices de preços. Está mentindo (e expurgando) 0,5% de inflação por mês. É escancarado, ninguém tem dúvidas, mas não acontece nada e ele continua popular. O mundo hoje permite qualquer política econômica. Há excesso de liquidez, benefícios mundiais, tem riquezas jorrando. Quando o mundo vai bem, a dúvida não é quem vai bem. A dúvida é quem vai ficar bem quando o mundo não for tão bem. Quem é que fez o dever de casa? Quem é a cigarra e quem é a formiga? O Brasil não é tão cigarra quanto os nossos vizinhos. Mas deixou de ser formiga há algum tempo.
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