Suíça
Fundos de pensão
aplicam 35% em ações
Clarissa Wahl,
de Genebra

Donos de habilidade invejável na arte de fazer relógios, os suíços começam a se desfazer das más lembranças e dar curso normal aos ponteiros do mercado de ações, que até então marcavam as horas dos longos dias de 2002. E não era para menos, pois naquele ano o índice da Bolsa de Valores da Suíça – com sede em Zurique, volume médio de movimentação diária de 6,1 bilhões de francos e 347 empresas listadas – registrou perdas de 25,95%, levando os diretores de fundos de pensão locais a abandonar o hábito corrente da happy hour regada a cerveja e raclette para tentar reverter o estrago causado no funding de seus planos previdenciários.

Com ativos avaliados em 398,8 bilhões de euros em 2006 – ou 129,6% do Produto Interno Bruto (PIB) local – segundo recente levantamento da Mercer Investment Consulting, os fundos de pensão suíços alocavam, no final de 2006, um total de 33% de seus recursos em ações, dos quais 16% no mercado doméstico e 17% no internacional – e o porcentual já está evoluindo para 35%. O porcentual é um pouco maior que o registrado em 2002 e 2003, quando chegou a 29,3%, mas se esperava mais, o que só não aconteceu devido aos anos de crise. Os especialistas na indústria suíça esperavam um boom nas carteiras de renda variável a partir do ano 2000, como reflexo da maior flexibilidade dada à regulamentação dos investidores institucionais naquele ano. A partir daí, as regras locais passaram a ter o aspecto prudencial, e não mais quantitativo. Trocando em miúdos, o limite de investimento passou às mãos dos próprios dirigentes, que teriam maior liberdade para alocar os ativos das fundações, com base no perfil e necessidades de seu plano de previdência.

As mudanças começam e tendem a favorecer o Brasil. No entender do diretor de desenvolvimento de novos negócios para a Europa da Pictet Asset Management, Udo von Werne, os fundos devem retomar seus investimentos em ações, com foco dirigido a empresas com atuação em países emergentes – em especial integrantes do Bric (Brasil, Rússia, Índia e China). O atrativo? O crescimento das economias locais, já em curso, ou, no caso brasileiro, ainda por ganhar mais impulso, capaz de impulsionar ganhos e turbinar a lucratividade. A China que o diga, com seu PIB nacional crescendo a uma base de pelo menos 10% ao ano e que, por essa mesma razão, tem dado dor de cabeça aos investidores globais, que temem um descontrole da inflação e potencial inversão do ciclo virtuoso.

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O movimento de alta já começou, constata outro estudo da consultoria Mercer, intitulado European Institutional Market Place Overview, publicado em março. É um consolidado dos perfis de investimento de 651 fundos europeus, com patrimônio de 423 bilhões de euros. Segundo o levantamento, durante 2006 e já observando a política de investimentos de 2007, houve aumento de dois pontos porcentuais no portfólio de ações dos fundos locais, para 35%. “A alta não se deu somente pela valorização natural das carteiras, mas também por meio de compras. E certamente estas não vão parar por aí”, assegura Werne. Se o apetite dos fundos por mais ações de fato se confirmar e consolidar como tendência nos próximos anos, o Brasil terá muito a ganhar. Especialmente se o tão esperado grau de investimento (investment grade) sair mesmo para o País, que se tornará elegível para receber aportes de investidores institucionais globais.

Enquanto o upgrade não chega, os fundos suíços seguem indo às compras em alguns dos segmentos pelos quais o país é um dos mais conhecidos e respeitados no exterior: a indústria farmacêutica e o setor industrial como um todo. Os fundos de pensão suíços, como também acontece na maior parte do mundo, investem observando índices. E, aqui, só dando uma rápida olhada nos dois principais índices – o SPI e o SMI – percebe-se que dominam empresas do setor farmacêutico e de tecnologia, afirma o consultor da Mercer Investment Consulting baseado em Zurique, Michael Valentine. De fato, entre os nomes estrelados integrantes do índice figuram a Ciba, Novartis, Cyngenta, Schindler e Swatch.

Embora a bolsa de valores suíça não forneça pormenores sobre a participação dos fundos de pensão no movimento mensal, estudo revela que o crescimento dos investimentos dos fundos na bolsa foi gradual e constante ao longo dos anos.

Os ativos totais dos fundos de pensão suíços evoluíram do equivalente a 36% do PIB, em 1970, para 121%, em 2000. Esse crescimento foi alcançado, em parte, graças à generosa fatia destinada aos investimentos no mercado acionário, mostra estudo da diretora da divisão de Política Social da Organização para a Cooperaçãoe Desenvolvimento Econômico (OCDE), Monika Queisser. Os investimentos totais dos fundos em ações cresceram de 7% dos ativos, em 1987, para a casa dos 30% em 2000.

Udo Von Werne, da Pictet
Foco nos emergentes, como o Brasil

Mas, em contraste com o peso dos fundos de pensão, as carteiras de ações dos fundos suíços ainda são inferiores às de outros países europeus, com indústria de fundos semelhante. Por exemplo, as ações perfazem 61% do portfólio dos fundos de pensão no Reino Unido, 60% na Irlanda e 46% na Suécia.

Uma explicação para isso está na restrição quantitativa dos portfólios. Até meados da década de 1980, os investimentos em ações estrangeiras não podiam exceder 10% dos ativos, e deveriam somente incluir papéis listados na bolsa de valores suíça. Esta imposição foi abandonada em 1985. O porcentual permitido para esse tipo de aplicação aumentou para 25%, em 1989. Mas a agência de supervisão e fiscalização, a partir de 2000, passou a admitir exceções para os fundos que provarem satisfatoriamente – através de testes de stress – que têm habilidade suficiente para gerir ativos mais arriscados. Tanto que, a partir de abril de 2000, foi dada a permissão aos fundos de desenharem sua própria estratégia de investimento, sem ter de apresentá-la ao órgão do governo local responsável pela supervisão dos investidores institucionais.

No entanto, nem só investimentos em ações são feitos pelos fundos. No último ano, a alocação em títulos públicos e privados tanto da própria Suíça quanto dos países vizinhos atingiu 40,5% dos ativos, e não tende a perder espaço enquanto as taxas de juros não diminuírem o ritmo de alta. Nos últimos meses, o Banco Central Europeu elevou para 3,75% ao ano a taxa praticada nos países que compõem a zona do euro – a Suíça não integra o grupo de 27 nações. Mas a alta da taxa aumentou a atratividade dos títulos públicos e privados de países vizinhos, que hoje respondem por 10,8% dos recursos dos fundos helvéticos. Na própria Suíça, os juros subiram, passando de 1,14% para 2,25% ao ano no período de 12 meses encerrado em março último.

Mesmo com a alta dos juros, não há como a taxa européia disputar com a brasileira. Por isso mesmo, influenciados pelas baixas taxas de juros, volatilidade nos mercados, e maior individualismo, ao mesmo tempo que motivados pelo receio de não conseguir honrar benefícios futuros, fundos de pensão, que até então ofereciam planos do tipo em que os valores dos benefícios previdenciários a serem pagos são previamente definidos, passaram a substituí-los rapidamente. Para evitar embates futuros com déficits e a incapacidade de pagar aposentadorias e pensões prometidas há décadas para funcionários de suas patrocinadoras, os dirigentes de fundos tiveram de adaptar-se aos novos tempos. Na Suíça, a troca para planos tipo CD (contribuição definida, ou seja, benefício indefinido) também ganhou adeptos. E muitos. Hoje, o sistema é um dos únicos, na Europa, em que 80% de seus fundos são CD.

E, a contar com a animada previsão do diretor e sócio da consultoria Complementa, Michael Brandenburger, não vai demorar para o sistema estar integralmente desenhado nesse modelo. “Com as baixas taxas de juros e a vulnerabilidade à qual os fundos estão sempre sujeitos, acho que nos próximos dez anos quase 100% dos fundos deverão ser de contribuição definida”, garante.

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