IPOs

Após os recordes, trégua para avaliar

Theo Carnier

As ofertas públicas de ações caíram no Brasil e no mundo com a crise do subprime nos Estados Unidos, mas o grau de investimento conferido ao Brasil no dia 30 de março, pela agência de classificação de risco Standard & Poor’s, deu um empurrão no mercado interno de capitais. Atingiu, instantaneamente, o mercado secundário de ações – que apresentou fortes altas entre 2 e 6 de maio – e, provavelmente, beneficiará também as operações de lançamento de ações. “Vamos ter uma segunda onda de IPOs (sigla em inglês para estas operações)”, acredita Humberto Ricardo Rocha, professor de Mercado de Capitais da Fundação Instituto de Administração (FIA). “Com o investment grade, poderemos ter novamente um grande número de lançamentos de ações, depois do recorde do ano passado, quando as companhias conseguiram mais de R$ 67 bilhões com essas emissões.”

Um aumento expressivo dos volumes negociados com ações, commodities e futuros também é previsto pelos analistas, pois mais investidores estrangeiros deverão procurar os mercados do País. No caso dos futuros, prevê-se entrada expressiva de recursos originários dos hedge funds, interessados em operações de arbitragem e de hedge (proteção).

Os benefícios da nova classificação do País deverão se estender a empresas que lançaram ações no ano passado, com correção das cotações para cima, prevê o diretor de Renda Variável do HSBC Investment, Eduardo Favrin. No ano passado, o número de IPOs foi recorde, com 63 operações. Em 2008, até o Brasil receber a nova “nota” de risco, foram realizados três lançamentos de ações. No final de abril, havia mais dez empresas aguardando para realizar seus IPOs, com pedido na Comissão de Valores Mobiliários (CVM).

A primeira destas operações foi realizada pela fabricante de fertilizantes Nutriplant, que também inaugurou o segmento Bovespa Mais, que permite o acesso gradual de pequenas e médias empresas ao mercado de ações. A empresa ofertou 2,07 milhões de ações ordinárias, a R$ 10 cada e teve participação de 11% de investidores estrangeiros, em comparação a uma média de 75% nos IPOs realizados em 2007. “Houve concentração no mercado interno, o que pode se tornar um padrão em operações similares”, diz Ronald Herscovici, sócio do escritório Souza, Cescon, Avedissian, Barrieu e Flesch Advogados, que deu assessoria à Nutriplant no processo de abertura de capital.

Humberto Rocha, da FIA

O mercado ganhou consistência

Em abril, foram feitos dois IPOs: da Hypermarcas, fabricante de produtos com marcas como Assolan, Benegrip e Zero Cal; e Le Lis Blanc Deux, de moda feminina. A Hypermarcas captou R$ 700 milhões com a operação, com preço inicial de R$ 17 por ação. A companhia está confiante na aceitação de seu papel, principalmente porque seus produtos são voltados principalmente para as classes C e D da população, que vêm recuperando o poder de compra.

No prospecto de lançamento de ações, a empresa diz que “a camada da população mais pobre do País aumentou seu gasto médio com alimentos, bebidas, produtos de higiene pessoal e limpeza em cerca de 35% nos últimos cinco anos”. A Hypermarcas concentra sua produção nos segmentos de limpeza, alimentos, beleza, higiene pessoal e medicamentos – com destaque nas listas de compras dos consumidores das classes C e D.

O IPO da Le Lis Blanc Deux rendeu à companhia mais de R$ 150 milhões, com 22,5 milhões de ações vendidas. Foi aberta a investidores de varejo, no limite de 20% do total, com uma restrição: esses aplicadores só poderiam comprar papéis se não tivessem vendido ações no dia da estréia em IPOs anteriores. A empresa planeja utilizar 30% dos recursos obtidos na expansão de lojas próprias, 30% em aquisições, outros 30% no pagamento de dívidas e 10% como capital de giro.

Na mira dos fundos – Embora estas operações não tenham alcançado o nível bilionário de alguns IPOs do ano passado, o resultado foi favorável às empresas. “Essas companhias conseguiram recursos para seus planos, a custo mais baixo do que em financiamentos”, lembra Rocha. Com o grau de investimento, mais empresas se beneficiarão desses recursos: “Desde que foi anunciado que o País é investment grade, temos mais especialistas de mercado estudando os mercados brasileiros. O Brasil passou a fazer parte da lista de participantes importantes do mercado mundial, como os fundos de pensão dos Estados Unidos. Muitos deles só são autorizados a aplicar em países que têm o grau de investimento”.

Mas uma corrida em direção aos mercados de ações e de futuros do Brasil não deve demorar, prevê Favrin. Num primeiro momento, “não haverá uma chuva de IPOs”, mas em um curto período de tempo deve haver “um aumento no apetite por novos papéis”.

clique para ampliar

Rocha calcula que há cerca de 150 grandes fundos no mundo que compram ações. E parte deles estava fora do mercado de capitais brasileiro pela falta do grau de investimento. “Agora, este quadro vai mudar. A preferência é pelo Brasil, na comparação com outros emergentes. Índia e Rússia, por exemplo, ainda são vistos com certa reserva por estes fundos”. Outros países que receberam grau de investimento das agências de rating, lembra o professor da FIA, aumentaram o número de IPOs: “Quando se recebe a nova classificação, o prêmio de risco cai. É certo que essa situação vai acontecer também no Brasil, atraindo investidores para mercados futuros, títulos da dívida e investimento estrangeiro direto”.

Estudo da equipe de economistas do Instituto de Estudos para o Desenvolvimento Industrial (Iedi) segue a mesma linha e aponta a “ampliação dos investimentos produtivos na economia e a redução dos custos de capital das empresas e instituições públicas e privadas” como duas “das mais destacadas conseqüências” da nova classificação do País. Como o custo de capital é menor no mercado de ações, o grau de investimento representará, na avaliação da entidade, um impulso extra para as bolsas brasileiras. “Os IPOs dispararam até agosto do ano passado e depois arrefeceram”, recorda Júlio Gomes de Almeida, consultor do instituto. “Mas a partir do grau de investimento vão deslanchar novamente, mesmo com a crise nos Estados Unidos.”

Entre os candidatos a maiores benefícios com os IPOs, avaliam especialistas, estão os setores que têm custo de capital mais elevado, como químico, metalúrgico, siderúrgico, papel e celulose, cimento e mineração. Os investidores, principalmente estrangeiros, interessam-se também pelo setor financeiro e pela construção civil. Mas os benefícios tendem a ser generalizados, acredita Humberto Rocha. “Em resumo, vai faltar avião – ou seja,virão tantos investidores estrangeiros para o mercado brasileiro que a demanda tende a crescer em ritmo exponencial, incentivando as empresas a lançar ações.”

[-] voltar