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| Os investidores estão voltando |
| Milton Gamez |
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Milhares de pessoas físicas investem no mercado acionário
A emissão de ações voltou ao cardápio financeiro das companhias abertas. Nos últimos dois anos, 28 empresas captaram mais de R$ 21 bilhões com o lançamento de novos papéis. Dezessete delas o fizeram no Novo Mercado da Bovespa e muitas chegaram à Bolsa pela primeira vez. Essa revolução - quase um milagre num país que tem praticado as taxas de juros mais altas do mundo - conseguiu seduzir o público mais importante para o desenvolvimento de qualquer mercado de capitais: os investidores. Sim, eles estão de volta à Bolsa e, melhor ainda, na companhia de quem nunca havia investido em ações.
Os indicadores desse fenômeno estão por toda a parte. Apesar de não haver estatísticas consolidadas sobre o total de investidores em ações no Brasil, os números disponíveis são reveladores. Os registros da Bovespa, por exemplo, mostram que mais de 128 mil investidores participaram das ofertas públicas de ações de 2004 e de 2005. Destes, mais de 116 mil eram de varejo, ou seja, pessoas físicas que aplicaram diretamente por meio das corretoras ou reunidas em clubes de investimento. As companhias reservaram uma parcela das emissões para elas, que investiram R$ 1,6 bilhão nos novos papéis.
Outro sinal importante é o crescimento do número de contas de pessoas físicas nos agentes de custódia (corretoras, bancos e distribuidoras) que operam na Bovespa. Em 2002, havia 85.249 contas. Em 2005, chegou-se a 155.183 contas, num crescimento de 82% no período. Os investidores homens representavam 79% desse universo e as mulheres, 21%. Parece pouca gente numa população superior a 173 milhões de pessoas - e é. Mas esses investidores, como André da Cruz Riemma, novo acionista da Petrobras e do Bradesco (veja quadro "Direto na fonte"), fazem parte de um grupo mais restrito que compra ações diretamente na Bovespa, com apoio das corretoras e também pela internet. Eles não estão sozinhos. Milhões de pessoas investem em ações de forma indireta, aplicando recursos de longo prazo em planos de previdência privada, fundos mútuos e clubes de investimento que compram papéis das companhias listadas na Bolsa.
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| Lamberto Percussi |
| Quando soube do segundo lote do PIBB, decidiu-se pelas ações |
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Cerca de 7 milhões de brasileiros já investem em planos de previdência privada aberta, oferecidos por bancos e seguradoras. Esses planos reúnem ativos de R$ 74 bilhões e tendem, cada vez mais, a aplicar em ações, afirma Oswaldo Nascimento, presidente da Associação Nacional da Previdência Privada (Anapp) e diretor da Itaú Vida e Previdência. "Hoje, mais de 80% dos ativos do setor estão em renda fixa, mas há espaço para crescimento da renda variável. Mais de R$ 600 milhões das reservas pertencem a planos de jovens, um público para o qual a Bolsa está ficando cada vez mais atrativa", diz Nascimento.
Já os trabalhadores de empresas privadas e públicas que participam de planos fechados de aposentadoria somam 1,8 milhão. Suas fundações de previdência têm patrimônio estimado em R$ 330 bilhões e figuram entre os principais investidores institucionais da Bolsa, com participações importantes em grandes empresas. Se houver continuidade na queda dos juros, a tendência das fundações é aumentar a fatia da renda variável, hoje em torno de 30% dos ativos. "Os investidores de longo prazo precisam de estabilidade econômica e regras estáveis", diz Nascimento.
Outro grupo importante de investidores em ações são os cotistas dos fundos mútuos de investimento administradas por bancos, corretoras e distribuidoras. Segundo a Comissão de Valores Mobiliários (CVM), em dezembro passado havia 10,6 milhões de cotistas de fundos no País. Destes, mais de 4 milhões (38%) aplicavam em carteiras exclusivas de ações, com patrimônio somado de R$ 53 bilhões (7% do total investido em fundos). Isso, sem contar os milhões de cotistas de fundos híbridos, que também incluem ações em suas carteiras. É um público que tende a crescer no futuro, caso se confirme a tendência de queda nos rendimentos dos fundos de renda fixa.
Por ora, o fato concreto é que o público investidor da Bolsa está em franco processo de renovação. O aumento vertiginoso no número de clubes de investimento não deixa dúvidas a esse respeito. Entre setembro de 2002 e dezembro de 2005, foram criados 944 clubes. Esses novatos representam 71% dos 1.322 clubes registrados pela Bovespa. Em novembro de 2005, esses clubes já haviam recebido aplicações de R$ 6,5 bilhões de 112 mil cotistas. Muitos deles foram atraídos pelo programa de popularização Bovespa Vai Até Você, em que profissionais das corretoras visitaram fábricas, clubes esportivos, universidades, praias e outros locais em todo o Brasil para divulgar o mercado acionário. Não foi à toa que a participação das pessoas físicas no volume financeiro da Bovespa cresceu de 21,9%, em dezembro de 2002, para 25,4%, em dezembro de 2004.
Milhares de novos investidores também chegaram à Bolsa indiretamente nos últimos dois anos ao comprarem cotas do Papéis de Índice Brasil Bovespa (PIBB). Lançado pelo BNDES para estimular o mercado, o PIBB replicou a carteira do IbrX-50, que mede o desempenho dos 50 papéis mais negociados na Bovespa. Em julho de 2004, nada menos de 25.300 investidores de varejo aderiram à primeira emissão de cotas do PIBB, de R$ 600 milhões. Na segunda, de R$ 2,3 bilhões, em setembro do ano passado, o público quase quintuplicou: 121.500 pessoas participaram. Dentre elas, o empresário Lamberto Percussi, dono do restaurante Vinheria Percussi, em São Paulo. "Quando soube do PIBB, achei que era hora de voltar a aplicar em ações", afirma (veja quadro "Ações no cardápio").
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| André da Cruz Riemma |
| Destinando 40% da carteira a ações, fundos de ações e de índices |
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ESFORÇO CONJUNTO - O ingresso de novos investidores na Bolsa não acontece da noite para o dia e deve-se a uma série de iniciativas do governo federal, da Bovespa, das instituições financeiras e das companhias abertas nos anos recentes. É uma longa lista, que passa pelo Plano Real, pela criação do Níveis Diferenciados de Governança e do Novo Mercado pela Bovespa, pelo incentivo dos coordenadores das emissões à adesão das empresas abertas a esses novos segmentos de negociação e, claro, pela aceitação das empresas de novos padrões de governança corporativa, transparência e respeito aos acionistas minoritários. "Quanto mais se desenvolve a governança corporativa e a aderência às boas regras de transparência, mais as pessoas confiam nas informações das empresas. Quanto mais respeito aos acionistas, mais investidores tendem a ser atraídos", diz Oswaldo Nascimento.
Do ponto de vista macroeconômico, a mudança qualitativa que houve com a estabilização da moeda a partir de 1994 criou condições para o crescimento da economia e das empresas, o que atraiu recursos estrangeiros para o mercado de ações e aumentou sua liquidez. Esse processo de ajuste ainda não acabou - os juros básicos continuam muito elevados -, mas é fundamental para o sucesso do mercado de ações, diz Rafael Guedes, diretor-geral da Fitch Ratings no Brasil. "A economia brasileira é hoje muito mais estável e propícia para investimentos de longo prazo. Ainda há turbulências, mas o País tem menor vulnerabilidade a crises e oferece uma perspectiva de desenvolvimento sustentável", afirma Guedes - ele próprio um investidor recém-conquistado pela Bolsa. Guedes, 43 anos, decidiu diversificar suas aplicações no ano passado e escolheu um fundo de ações atrelado ao Ibovespa. "Por força do meu trabalho, não posso comprar ações de empresas específicas ou de setores que analisamos. Escolhi um fundo genérico", explica.
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Investidores como ele têm sido seduzidos pelo desempenho do mercado acionário nos últimos anos. Além da valorização expressiva (o Ibovespa saiu de 11.268 pontos em dezembro de 2002 para 33.455 pontos em dezembro de 2005, uma alta de 196,9%), houve crescimento nos volumes de negócios em Bolsa (em média, R$ 1,6 bilhão por dia em 2005, o triplo do movimento de 2002). Mas é preciso muito mais do que boas notícias desse tipo para atrair novos investidores de varejo em pleno reinado da renda fixa. Para mudar a cultura de investimentos, a Bolsa e as corretoras participantes do Bovespa Vai Até Você levaram sua mensagem a mais de 30 milhões de pessoas em todo o País desde maio de 2002. Essa militância continua a trazer gente nova ao mercado. "Esse programa é muito importante para desmistificar o mercado de ações", diz Rodolfo Riechert, sócio-diretor do Banco Pactual.
Para ele, outro importante divisor de águas no processo de popularização da Bolsa foi a permissão para que os trabalhadores assalariados pudessem utilizar parte do FGTS para a compra de ações da Petrobras e da Companhia Vale do Rio Doce. Em 2000, 337 mil pessoas investiram em papéis da Petrobras e, em 2002, 600 mil aplicaram na Vale. O bom desempenho dos papéis tem ajudado na propaganda boca a boca junto a milhões de pessoas. "O investidor foi atraído às ações e teve boas notícias para contar aos outros. Começou-se a reformar o núcleo dos participantes da Bolsa", diz o sócio do Pactual.
O banco de investimentos carioca foi uma das instituições financeiras que mais acreditaram na retomada do mercado acionário como fonte de captação de novos recursos de longo prazo e voltaram suas baterias para as novas emissões. Segundo levantamento da Bovespa, em dois anos o Pactual participou como coordenador de 14 ofertas de ações, seguido do CSFB (nove), UBS (nove), Unibanco (sete) e Itaú BBA (seis).
O desempenho positivo da grande maioria das ações lançadas nos últimos dois anos, especialmente as do Novo Mercado tende a atrair novas empresas e investidores à Bolsa. "As ofertas primárias de ações têm dado um grande impulso ao mercado. Quem investiu na Natura teve mais de 200% de ganho. Boas histórias como essa têm se propagado entre as pessoas físicas", diz Roberto Fonseca, gerente da Fator Corretora.
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Segundo ele, as operações das pessoas físicas já garantem cerca de 50% das receitas da instituição. A Fator tem mais de 25 mil clientes individuais cadastrados em seu sistema de Home Broker e montou uma estrutura de atendimento somente para esse público. "Queremos ampliar ainda mais o número de pessoas físicas em nossa clientela", diz Fonseca.
Novatos ou não, os investidores já mostraram que têm fome de ações. Nos 31
lançamentos de 2004 e 2005, eles deixaram claro que teriam aplicado ainda mais se pudessem. A demanda do varejo superou a oferta e houve rateio na maioria das operações. Em média, os pedidos de reserva de ações ficaram em R$ 45 mil por investidor de varejo, mas eles só levaram R$ 25 mil. Tamanho interesse acabou até com uma antiga brincadeira dos operadores. "Ninguém mais fala que, se as pessoas físicas estão entrando na Bolsa, é hora de sair", lembra Rodolfo Riechert, do Pactual. |
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Direto na fonte
O analista de sistemas André da Cruz Riemma, 27 anos, entrou em 2006 decidido a investir diretamente no mercado de ações. Cliente da Fator Corretora, em São Paulo, Riemma usou o maxitrade (sistema de compras pela internet, baseado no Homebroker), em janeiro, para adquirir ações da Petrobras e do Bradesco. “Foi a primeira vez que investi em papéis específicos”, conta. “Adorei e pretendo fazer isso regularmente.”
Sua experiência em Bolsa começou recentemente. No final de 2004, ele decidiu buscar opções de investimento à tradicional caderneta de poupança. ‘Achei que estava perdendo dinheiro na poupança e comecei a estudar mais sobre a Bolsa”, diz. Os primeiros passos foram cautelosos: primeiro, optou por fundos de renda variável com perfil mais conservador, oferecidos pelo seu banco. Depois, tentou fundos mais agressivos. No final do ano passado, investiu no Papéis Índice Brasil Bovespa (PIBB).
As ações e as cotas de fundos de ação e de índice já representam cerca de 40% de suas aplicações. O analista reconhece o risco dos investimentos em Bolsa e está disposto a corrê-los. “Já sofri pequenas perdas, mas o longo prazo é o que importa”, afirma. “Quero fazer o dinheiro trabalhar por mim.”
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Ações no cardápio
Nunca lhe faltou simpatia e interesse pelo mercado de ações. Mas o administrador de empresas Lamberto Percussi, 43 anos, só investia o dinheiro da família no negócio próprio, o restaurante e rotisserie Vinheria Percussi, no bairro paulistano de Pinheiros. “Não sobrava dinheiro para outra coisa que não fosse a reforma e a ampliação do restaurante”, lembra-se. No ano passado, Percussi teve uma folga financeira e finalmente pôde investir na Bolsa. Fez uma aplicação no fundo Papéis Índice Brasil Bovespa (PIBB). “Estou muito satisfeito com os resultados até agora”, comemora.
Bem informado sobre a nova safra de empresas na Bolsa, Percussi pretende comprar ações nas próximas ofertas públicas. Para ele, o mercado está muito mais sério do que no passado. “As empresas estão mais preocupadas com questões de governança corporativa e adotaram uma postura mais transparente. Isso transmite mais segurança ao investidor”, diz.
Amante dos vinhos, Percussi sabe que é preciso escolher bem e, às vezes, ter muita paciência para esperar os anos necessários até o momento certo de abrir uma garrafa. O cuidado na escolha dos papéis, a perseverança e a visão de longo prazo são também essenciais no investimento em ações, afirma. “Não se pode entrar de cabeça na Bolsa, nem aplicar recursos do dia-a-dia”, afirma. |
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