Em Foco
A energia elétrica mira o futuro
Theo Carnier
 
 

Rafael Quintanilha

Oportunidades de investimento no setor de energia elétrica

O setor de energia elétrica deve repetir, em 2006, os bons resultados do ano passado, quando o consumo cresceu 4,6%, quase o dobro do avanço do Produto Interno Bruto (PIB). O segmento é vital para a economia como um todo, em especial, para setores industriais, como alumínio, papel e celulose e a área química, que são eletrointensivos.

Historicamente, o consumo anual aumenta 1,3 ponto porcentual mais do que o PIB. Passou por um susto em 2001, com o racionamento, mas se recuperou e agora enfrenta o teste do investimento em geração.

Até agora, parece faltar motivação para o setor privado investir, mas o governo insiste no modelo em vigor, para evitar novos colapsos a partir de 2010 e atender a um mercado consumidor, hoje, com 48,5 milhões de famílias, além de empresas. Pelo levantamento da Agência Nacional de Energia Elétrica (Aneel), o País tinha em janeiro 1.481 empreendimentos de geração de energia em operação, capazes de gerar 93,202 mil megawatts (MW) de potência, dos quais 74,7% eram de grandes usinas hidrelétricas.

Ainda não há garantia de que haverá energia elétrica suficiente para atender a demanda, em especial, na próxima década, tanto que as usinas termoelétricas, que produzem a custo mais elevado, estão sendo ativadas. Para o fornecimento dos próximos cinco anos, serão necessários investimentos estimados em US$ 47 bilhões, aumentando a capacidade de geração em 44 mil MW. Para chegar a esses totais, será preciso capital privado e estatal e uma das melhores fontes para obter recursos é o mercado de capitais.

“O setor é de capital intensivo e com investimentos de longa maturação”, lembra José Fillipo, vice-presidente de Finanças e de Relações com Investidores da CPFL Energia, uma das maiores empresas do setor. “Por isso, o mercado de capitais é uma das melhores fontes para conseguir recursos para investir, a um custo compatível e mais baixo que o dos empréstimos. A negociação de ações na Bolsa de Valores tem sido muito importante para a CPFL e para as demais empresas do setor”, afirma.

Na mesma linha, Antonio José Sellare, vice-presidente de Finanças da Energias do Brasil, holding que consolida ativos na área de distribuição de energia e que lançou ações no mercado no ano passado, recorda a importância do mercado de capitais para o setor elétrico: “É fundamental estar na Bolsa, ainda mais porque os investimentos nesse segmento são de longo prazo. Temos, com esse mercado, acesso a capitais adicionais, a um custo mais compatível com nosso planejamento”.

Prestígio no mercado – O setor elétrico tem uma longa tradição na Bovespa. Foi o primeiro a ter um índice setorial (o Índice de Energia Elétrica), lançado em 1996. No ano passado, o indicador teve elevação de 42,8%, contra 27,7% do Ibovespa. Além disso, o valor de mercado das ações das empresas somou R$ 117,6 bilhões, o quarto maior entre os setores mais negociados na Bolsa e a lucratividade cresceu 62% em dólar, no ano passado. E é o segmento com maior número de companhias no Índice de Sustentabilidade Empresarial (ISE), lançado pela Bolsa no ano passado e composto por empresas que privilegiam práticas sociais e ambientais corretas. O setor tem 11 ações de oito companhias dentro do ISE.

Contando todas as ações do setor elétrico negociadas na Bolsa, a rentabilidade nos 20 primeiros dias do ano foi de 18,97%, em média, a maior entre todos os setores presentes na Bovespa, segundo levantamento da Economatica.

Esse desempenho dependeu das iniciativas das empresas, que melhoraram a lucratividade e enfatizaram a governança corporativa, numa fase de consolidação do novo marco regulatório. O modelo finalmente definiu as bases de remuneração das distribuidoras. E foi realizado, em dezembro, o primeiro leilão de energia nova.

“O grande teste do modelo, que foi a contratação regulada de energia pelos leilões, foi bem-sucedido”, acredita Vitor Pereira, analista de energia da BES Securities, do grupo Espírito Santo. “A esse fator positivo se somaram o crescimento do consumo, reajustes tarifários e adequação do endividamento das empresas, que possibilitaram a volta da lucratividade”. Rafael Quintanilha, analista do setor da corretora Ágora Sênior, também considera que os leilões ajudaram a dar impulso ao setor.

Mas há questões a enfrentar, como o ânimo do investidor: “É preciso ter atenção ao preço da energia, que deve ficar em linha com o custo marginal de expansão. Se isso acontecer, o investidor se sentirá ainda mais atraído pelo mercado de energia e as ações das empresas do setor devem ter mais uma vez resultados positivos em 2006”.

Segundo Pereira, a previsão favorável deve se confirmar, já que “os avanços regulatórios, além de possibilitar maior previsibilidade do fluxo de caixa das empresas, trouxeram melhora de percepção de risco regulatório e redução nas taxas de desconto das empresas”. Ele também prevê que o setor ganhará impulso com a retomada econômica que provoca aumento do consumo de energia e com outros fatores positivos, como aumento de 35% no mercado livre, margens crescentes e estrutura de capital melhor.

Investimento, o nó – Mas o analista do BES lembra que é preciso ter um cenário mais atrativo para o setor privado, com taxas de retorno compatíveis com o risco. E como sem eletricidade não há crescimento econômico, “o setor precisa é de investimento”, afirma ele. O problema, portanto, é remover as incertezas. Primeiro, o governo terá de fazer novos leilões de energia. No leilão passado, foi contratada quase toda a energia prevista até 2010, mas foram arrematados 70% do total colocado em leilão. Se o País crescer mais de 4% ao ano nos próximos cinco anos, a energia poderá faltar. Os possíveis leilões deste ano se limitariam a novas usinas térmicas, pois não tem como construir e por em operação novas hidrelétricas antes de 2009 (elas levam no mínimo cinco anos para ser construídas).

Os otimistas com os números do leilão lembram que foram negociados 3.286 megawatts, com 51 novos empreendimentos. Mas os descrentes observam que menos de um terço é de origem hidrelétrica – e que mais da metade ficou com estatais, ou seja, predominou o temor privado.

A volta das estatais pode ser um fator inibidor de investimentos, dado o temor de uma política tarifária que busca a modicidade do preço, não a remuneração atraente.

Antes da privatização da distribuição, o setor dependia totalmente do Estado. Há, portanto, uma longa história de convivência entre empresas privadas e estatais. A primeira hidrelétrica construída no Brasil foi Ribeirão do Inferno, em 1883, e sua energia foi reservada para uso privativo de uma mineradora, na cidade mineira de Diamantina.

“O maior risco para um setor como o de energia elétrica, com investimentos de longa maturação, é a maneira como se criam e desfazem as regras para a atividade”, observa Paulo Ludmer, diretor da Abrace, a associação dos grandes consumidores de energia elétrica. “É preciso ter estabilidade, o que nem sempre é garantido pelos governos. Tínhamos uma regra para o setor no governo Fernando Henrique, a outorga onerosa (em que o vencedor do leilão é quem paga mais), e que agora mudou para tarifa mais baixa. Quem investiu com base na regra anterior, perdeu. Por exemplos como esse dá para perceber porque a presença do governo sempre preocupa.”

Promessas para o investidor – Para evitar que as mudanças de regra afastem o investidor, o governo aposta no modelo em vigor e enfatiza que o setor é prioritário. O Ministério de Minas e Energia (MME) anunciou que serão licitadas, em maio, quatro hidrelétricas e está acelerando o projeto do complexo hidrelétrico do Rio Madeira, em Rondônia, com capacidade de 6,6 mil MW produzidos por duas usinas.

A estabilidade regulatória é indispensável. “É preciso ter sinais claros da estratégia para o setor, para que os investidores se preparem e façam suas aplicações, já que existe necessidade de expansão”, diz Mário Cilento, presidente da associação dos grandes consumidores de energia (Abrace) e vice-presidente executivo da Carbocloro. Exigências ambientais exageradas, teme Cilento, podem inviabilizar novas usinas.

Na avaliação de Cilento, o governo não deve cair na tentação de tolher a competitividade do setor: “É saudável a convivência entre o mercado regulado e o livre no setor de energia elétrica”, garante. “A Carbocloro foi a primeira empresa a consumir energia no mercado livre no Brasil e tem essa filosofia até hoje. O modelo é adotado com sucesso em vários países – existe mercado livre de energia elétrica na Albânia, por exemplo.”

Para um País das dimensões do Brasil – citado pelo World Energy Council como um dos cinco maiores produtores de energia hidrelétrica –, essa liberdade é fundamental. Essas usinas respondem por 18% da energia elétrica global e são responsáveis por metade da geração de eletricidade em 63 países. No caso do Brasil, esse nível sobe a 90%.

Por isso é tão importante atrair investidores, com ênfase no segmento acionário. “É preciso ter mais projetos, e para isso os investidores contam com a Bolsa de Valores como aliada em seu processo de expansão”, diz Vicente Pereira, da BES Securities. Como essas companhias conseguem no mercado de capitais recursos a custo mais baixo que no setor bancário, podem melhorar o fluxo de caixa “e essa situação melhora a percepção do setor com os aplicadores no mercado de ações”.

Com esse perfil, avalia Quintanilha, “o setor elétrico se mostra positivo para quem está ou pensa em entrar na Bolsa, oferecendo boas oportunidades para investir”.

A importância do mercado de capitais para o setor é enfatizada também por Nélson Siffert Filho, chefe do Departamento de Energia Elétrica do BNDES. Ele lembra que em 2005 o banco destinou R$ 4,5 bilhões para a implantação de 43 projetos no setor e que as empresas que receberam os financiamentos são incentivadas a melhorar sua governança corporativa e a acessar o mercado de capitais. “As companhias do setor precisam estar conscientes da importância de ter ações negociadas na Bolsa de Valores. Temos mostrado essa realidade a elas, tantos nos segmentos de geração e transmissão quanto na distribuição. Os exemplos mostram que estar no mercado de capitais traz muitas vantagens empresas do setor elétrico, que precisam investir quantias consideráveis e trabalham com projetos de longo prazo”.

Siffert lembra que o setor de distribuição de energia, por exemplo, atrai cada vez mais investidores e deve parte importante dessa procura à sua presença no mercado de capitais. “O setor saiu de uma situação grave, como o racionamento de 2001, para um fortalecimento, em que foi fundamental a conscientização das empresas para a governança corporativa e a presença na Bolsa de Valores. Com essa abertura, aumentaram a confiança dos investidores e as empresas puderam se fortalecer – ajudando, por tabela, a fortalecer o setor”.

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O especialista do BNDES recorda que o setor elétrico não tem problema de demanda: “A procura cresceu por 100 anos seguidos, com a única exceção de 2001”, afirma. No entanto, reafirma que essa crescente procura é insuficiente para atrair investidores: “As empresas do setor precisam também, além de um marco regulatório firme, ser transparentes e mostrar capacidade de obter recursos de várias fontes. Elas conseguem esse objetivo entrando no mercado de capitais e, assim, conquistam os investidores”.

Antonio José Sellare, vice-presidente da Energias do Brasil, reforça: “Precisamos mostrar que temos condições de obter autonomia financeira para tirar proveito do crescimento do mercado de energia. Nossa empresa adotou essa estratégia, demonstrando que não depende só do endividamento para fazer investimentos. Entramos no Novo Mercado da Bovespa e dessa forma ficamos em linha com nossos acionistas controladores (a portuguesa EDP), que também age assim no exterior e consegue ter acesso a recursos adicionais”.

Sellare afirma que as empresas do setor elétrico correm sério risco se dependerem apenas de recursos de dívida para crescer: “É necessário também ter acesso ao mercado de capitais. Assim, também para nossos investimentos no futuro, teremos recursos a custo mais baixo. E sentimos que o aplicador tem interesse nos papéis do setor, também pela valorização das ações das empresas desse segmento”.

Fillipo confirma o interesse e diz que uma das metas da empresa é aumentar a presença das pessoas físicas entre seus investidores: “Optamos pela governança corporativa e atraímos mais aplicadores. Uma de nossas metas é atrair ainda mais pessoas físicas. Com isso, queremos chegar a um free-float de 25% em setembro de 2007 (atualmente o índice é de aproximadamente 18%). Dessa forma, conseguimos cada vez mais exposição no mercado e atraímos mais investidores – o que é fundamental para empresas do nosso setor, que tanto necessita de recursos vindos de um mercado importante como a Bolsa de Valores”.

 
 
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