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Empresas estimulam investidores |
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Patrões e empregados com os mesmos interesses
Muitos trabalhadores só descobriram como funciona o mercado de ações nos quiosques do Bovespa Vai À Fábrica, um dos módulos de maior sucesso do programa Bovespa Vai Até Você. Outros travaram conhecimento com o pregão ao visitarem a sede da Bolsa, aberta aos turistas do Centro histórico de São Paulo nos fins de semana. Agora, a conversão dos trabalhadores em investidores do mercado acionário ganhou mais uma vitrine: as companhias abertas que chegam à Bolsa com novas ofertas públicas de ações.
Muitas empresas estão separando para seus funcionários uma fatia da parcela das emissões reservada ao público de varejo. É o caso da Companhia de Saneamento de Minas Gerais (Copasa), que destinou aos 10.800 empregados 2% de sua recente oferta global de 25,6 milhões de ações no Novo Mercado. A construtora Gafisa também reservou aos 475 empregados um mínimo de 2% da oferta global, de 40 milhões de ações ordinárias. Quem trabalha nessas duas companhias poderá investir até R$ 300 mil e participar dos resultados futuros, como sócios capitalistas. Ambas seguem o exemplo de empresas como CPFL Energia, Suzano Petroquímica, Porto Seguro, Renar Maçãs e Grendene.
Em princípio, qualquer investidor de varejo pode comprar ações numa oferta pública, inclusive pessoas ligadas às empresas emissoras. Então, por que muitas separam uma parcela da distribuição para seus próprios funcionários? Há bons motivos para isso.
Um dos mais importantes é o mesmo que leva muitas companhias a distribuir opções de ações aos seus executivos: estimular o engajamento às estratégias e a sintonia de objetivos entre trabalhadores e acionistas controladores. “A venda de ações aos funcionários é mais uma fonte de alinhamento dos seus interesses com os da companhia”, afirma Andrea Pereira, gerente de Relações com Investidores da Suzano Petroquímica. “Se o desempenho da empresa for bom, todos saem ganhando.”
Outra razão relevante é disseminar internamente a cultura de companhia aberta – que implica mudanças importantes envolvendo questões de governança corporativa, transparência e comunicação das informações ao mercado e aos órgãos reguladores. “Alocar uma parcela da emissão aos funcionários é importante para fomentar a cultura do mercado de ações entre eles”, diz José Antônio de Almeida Filippo, vice-presidente da CPFL Energia. “Ao se tornarem acionistas, os empregados passam a acompanhar o desempenho da ação e entendem que o preço reflete os resultados da companhia e do mercado em que ela atua.”
Quebra de paradigma – A questão cultural pesa ainda mais no caso de empresas que estão abrindo o capital. No ano passado, a Renar Maçãs, de Santa Catarina, deixou de ser uma empresa fechada de gestão familiar para fazer parte do Novo Mercado da Bovespa. Seus funcionários participaram da oferta pública inicial por meio de um clube de investimento em ações e, assim, comprenderam melhor a nova fase da companhia. “A Renar já antevia o choque de cultura e a mudança de comportamento que deveria acontecer no dia-a-dia da empresa”, conta Ricardo Sampaio, diretor de Relações com Investidores. Não é tarefa simples implantar uma nova estrutura de governança corporativa numa empresa marcada pela figura do dono, situada no interior do Estado. “Houve uma quebra de paradigma. Depois da abertura do capital, a cabeça dos funcionários mudou. Eles entendem melhor a figura do Conselho de Administração, a prestação de contas, a fiscalização”, diz Sampaio. Dos 315 funcionários que aderiram ao clube, 230 continuam acionistas. Entre eles está Paulo Garcez. “Foi a primeira vez que apliquei em ações”, diz (veja quadro ao lado).
O modelo de distribuição de ações no varejo, com o destaque de uma parcela exclusiva aos funcionários, tem também motivações de ordem técnica. Ao fixarem um porcentual mínimo das ações para o público interno, as empresas garantem que, até esse valor, não haverá rateio na distribuição. Os rateios têm sido comuns nas ofertas públicas, devido à demanda superior à quantidade de ações oferecida ao varejo. Em geral, esses investidores levaram, nos últimos dois anos, apenas 62,2% dos pedidos de reserva que fizeram nas 31 ofertas de ações de 28 empresas desde 2004.
No caso da Grendene, que fez uma oferta global de R$ 616,9 milhões em ações em outubro de 2004, houve adesão de 8.403 investidores de varejo – dos quais apenas 21,2% da demanda foi atendida. A exceção foi o pessoal contemplado na operação. “Todos os pedidos dos nossos funcionários foram atendidos”, afirma Doris Wilhelm, gerente de Relações com Investidores da Grendene. Houve 134 adesões, ao mesmo preço de subscrição pago pelos demais investidores de varejo.
A Grendene optou por uma distribuição interna conservadora, limitando a oferta aos funcionários com nível hierárquico da média gerência para cima. “A maioria do nosso pessoal trabalha nas fábricas. Fizemos um corte na distribuição para direcioná-la aos funcionários mais esclarecidos sobre o mercado de ações, que poderiam fazer uma análise do risco que estariam correndo”, explica.
Nas ofertas públicas, a maioria das empresas prefere atender a todos os funcionários. Algumas vão além e incentivam a aquisição dos papéis oferecendo condições especiais de pagamento. A Copasa ofereceu 10% do pedido de qualquer empregado que quisesse participar, a título de remuneração extraordinária. E financiou os outros 90%, sem juros. O prazo de pagamento foi parcelado até 15 de outubro de 2006.
O importante, qualquer que seja a opção da empresa, é alertar os novos acionistas sobre todos os riscos envolvidos no mercado de ações. Geralmente, eles são convidados a ler a seção “Fatores de Risco” nos prospectos da oferta pública. A comunicação aos funcionários sobre o comportamento das ações na Bolsa e os resultados da empresa deve ser permanente e ampla, diz Filippo, da CPFL Energia. “É importante relembrar sempre que a Bolsa é um mercado”, afirma.
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"Vou segurar firme"
Paulo Garcez, encarregado de Compras da Renar Maçãs, foi um dos funcionários da empresa que aderiu ao clube de investimentos criado para participar da abertura de capital. Investiu R$ 1.000,00. “Foi a primeira vez que apliquei em ações”, lembra. A queda das cotações após a oferta pública não o desanimou. “Meu investimento é de longo prazo e acredito na empresa. Vou segurar firme”, diz.
Como trabalha na Renar Maçãs há oito anos, Garcez ficou feliz com a oportunidade de participar do capital da companhia. “Foi uma boa experiência, uma chance de aprender mais sobre o mercado de ações.” Ele sabe que é preciso ter paciência com o sobe-e-desce das cotações. “A Bolsa é uma aplicação de risco. Mas nem sempre ocorre a perda, muitas vezes o investimento dá certo”, diz. Assim que quitar um financiamento bancário, pretende realizar novos investimentos em ações. “Quero investir mais.”
Para ele, a empresa mudou bastante desde a abertura de capital. “A exigência está maior, mas também é um lugar melhor para se trabalhar. Sabemos o que está acontecendo com a companhia”, avalia. |
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Um presente diferente
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| Luiz Bassetto Neto |
| Presente de padrinho mutiplicou-se |
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Imagine ganhar de presente, durante toda a vida, ações de uma mesma empresa. E, aos 21 anos, descobrir que tem uma pequena fortuna. Foi o que aconteceu com Thomas Gonçalez Bassetto. A história começa nos anos 80. Seu tio, Luiz Bassetto Neto, foi convidado a batizar o garoto logo após o nascimento. Engenheiro, ele começara a trabalhar na corretora Coinvalores e estava animado com o mercado acionário. Em vez de presentear o menino com brinquedos, decidiu comprar ações do Bradesco em seu nome, três vezes por ano, religiosamente.
Dito e feito. “Comprava o equivalente a US$ 100,00 no aniversário, na Páscoa e no Natal”, conta Luiz. Os anos passaram e Thomas nunca deu bola para o presente do padrinho. “Para mim, era só papel”, diz. Em vinte anos, Luiz aplicou o equivalente a US$ 6.000,00 em ações do Bradesco. O interesse do afilhado mudou. Na última vez que olhou o valor de sua carteira, no mês passado, Thomas tinha cerca de R$ 300 mil (US$ 136 mil). Isso, fora os dividendos que recebeu, aplicados em caderneta de poupança. “As ações são um investimento muito melhor que a poupança”, diz.
Thomas pensa em usar o dinheiro para abrir o próprio negócio ou comprar um imóvel. Quando? Não sabe ainda. O padrinho prometeu manter as aplicações regulares, desde que ele não mexa no dinheiro. “A vontade de gastar é grande, mas seria uma besteira”, pondera. Luiz só se arrepende de não ter feito o mesmo para si próprio. “Se eu tivesse comprado US$ 100 por mês em ações do Bradesco, por 20 anos, hoje estaria aposentado.” |
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