Descontando o futuro
Foi bem-vinda a iniciativa do prefeito de Cachoeira do Sul, do Rio Grande do Sul, que impôs a leitura de um livro por mês aos funcionários, com a obrigatoriedade de resumir e entregar o texto ao superior. Se esse bom exemplo frutificasse, os responsáveis por gastos públicos poderiam deleitar-se (ou se assustar) com O Valor do Amanhã, do professor de Economia e filósofo Eduardo Giannetti da Fonseca.
O texto trata dos juros numa perspectiva não meramente matemática, mas do custo de “antecipar ou retardar o fluxo das coisas de modo a cooptar o tempo como aliado”. Agora ou depois é a pergunta que cada ser humano se faz dezenas de vezes a cada dia, escolhendo entre poupar e investir, ingerir ou não as 500 calorias da segunda sobremesa, manter o velho e bom automóvel ou trocá-lo pelo modelo do ano, entre usar o tempo para estudar uma hora por dia ou ver o filme na TV.
Em muitos casos, nota Eduardo Giannetti, são múltiplas as possibilidades de escolha, bem como os riscos envolvidos. É tratada a diferença entre os casos de hipermetropia – ou seja, daqueles que se ocupam essencialmente com o futuro – e de miopia – isto é, daqueles que desdenham o amanhã. O texto induz à crença de que a virtude está no meio do caminho – apenas aparentemente, algo óbvio –, mas reconhece a dificuldade de achar o ponto ótimo.
A leitura da quarta parte do livro deveria ser obrigatória para os que tratam do dinheiro público e têm propensão a gastar. Ela é denominada Juros, poupança e crescimento. Para assegurar o progresso, é indispensável fazer poupança reprodutiva, afirma Giannetti. “A tônica dominante da poupança reprodutiva não é o medo, mas a confiança no futuro e a ambição de dias melhores: daí que a expectativa de juros reais positivos – termos de troca que efetivamente acenem com um amanhã melhor – seja uma condição necessária nesse tipo de aposta intertemporal”.
O autor explica o que é investimento – a taxa de acumulação de capital é fixada pela margem entre produção e consumo correntes – e dá a receita: “A sociedade precisa de algum modo decidir a proporção dos recursos que pretende investir na formação de capital visando expandir sua capacidade produtiva no futuro; e ela precisa chegar a algum tipo de acordo sobre como será feito o financiamento desse investimento. A poupança reprodutiva é a parte da renda social que não é consumida no presente e que deveria em tese financiar a tarefa de equipar e preparar os indivíduos para exercer ocupações mais profícuas à frente”.
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