Espaço Jurídico - Notícias
 
Entrevista
"Novo ambiente institucional protege investidores de arbitrariedades"
Por Andréa Háfez 15|07|2008
Maílson da Nóbrega
A elevação da classificação do Brasil para o patamar de investment grade é um reconhecimento de seu amadurecimento institucional. A conseqüência dessa nova colocação no ranking de recomendação para investidores vai além da chegada de um maior volume de recursos. Para o ex-ministro da Fazenda (1987-1990) e atual sócio da Tendências Consultoria Integrada, Maílson da Nóbrega, o posto conquistado traduz o resultado de um processo construído ao longo de mais de duas décadas e que ainda necessita ter continuidade.

"Essa nova realidade começou a criar, não apenas um ambiente para os mercados de capitais se tornarem a grande fonte de financiamento das empresas, de capital de longo prazo, mas também para um ciclo benigno de crédito na economia", diz o economista. Segundo a sua avaliação, se é correta a análise que a estabilidade macroeconômica veio pra ficar, também é certo dizer que o Brasil vai continuar avançando.

Em entrevista ao Espaço Jurídico Bovespa, Maílson da Nóbrega fala do impacto, no curto e longo prazo, da obtenção da classificação do mercado nacional como grau de investimento e analisa alguns dos principais passos adotados na construção do amadurecimento institucional do país. Dentro desse contexto, comenta a evolução da regulamentação do setor financeiro e do mercado de capitais.

Segundo sua percepção, o que significa a conquista do grau de investimento para a economia brasileira no curto e no longo prazo?
― O grau de investimento representa o reconhecimento internacional dos avanços institucionais pelos quais o país passou nos últimos 20 anos. Tanto a agência Standard&Poor's quanto a Fitch Ratings enfatizaram esse aspecto da realidade brasileira, que inclui uma autonomia operacional, ainda que não de Direito, do Banco Central. De acordo com a minha experiência no relacionamento com investidores no exterior, esse ponto é muito valorizado. O fato de o Brasil ter construído instituições, não apenas no campo político, mas para efeito do mercado de capitais e do campo econômico que puseram fim, ou limitaram de forma importante, o arbítrio dos governos, sinaliza que o país alcançou uma estabilidade macreconômica que parece duradoura. A chance de retrocesso é muito pequena e isso é cada vez mais incorporado nas análises de risco do país. Assim, para a economia, o grau de investimento significa o acesso do Brasil a um pool de recursos de investidores institucionais, principalmente recursos americanos, que só podem investir em papéis com grau de investimento. Além disso, essa nova classificação também representa uma abertura maior de financiamento para os segmentos mais relacionados ao longo prazo, como é o caso da construção civil, da infra-estrutura, da energia. O grau de investimento é um selo de qualidade para o estágio de desenvolvimento do Brasil e representa, também, um elemento adicional de inibição ao populismo. Ele exigirá que o Brasil preserve a sua trajetória, com a manutenção da política econômica, o que evitará a adoção de medidas populistas, a irresponsabilidade fiscal, e erros de política monetária que possam levar a perda do grau de investimento.

que é importante destacar nesse avanço institucional?
― Como é visto hoje pela nova teoria institucional, as instituições não se limitam ao campo político-eleitoral. Para efeito da economia, as instituições são as regras do jogo, formais ou informais, que alinham incentivos para permitir ou assegurar o comportamento responsável dos governantes e a criação de incentivos para decisões de natureza econômica, política, social e, particularmente, para o investimento privado. Elas limitam o arbítrio dos governantes e punem, com perda de popularidade, os governantes que mudam as regras, criando incertezas. O Brasil hoje tem um conjunto absolutamente inédito de quatro elementos que se auto-influenciam.

Quais?
― Em primeiro lugar, a democracia. O Brasil vive sua segunda experiência democrática. A primeira durou 19 anos, de 1945 a 1964, e terminou com um regime autoritário. Foi um período caracterizado por várias crises institucionais. A atual democracia tem 23 anos, é sólida. A democracia se tornou um valor da sociedade brasileira, não há ninguém pregando ou demandando um retrocesso desta área. Apesar dos defeitos _ há ainda um sistema eleitoral falho, a cultura política ainda tem muitos problemas, há muita corrupção, não há partidos sólidos, com capacidade de intermediar interesses _ mas seja como for, a democracia está consolidada. E a democracia é o pano de fundo para o debate, a divergência, a propositura de saídas, que formam um ambiente rico para a busca de soluções aos problemas nacionais.

E diretamente na área econômica, houve esse amadurecimento?
― O Brasil construiu instituições econômicas fortes, embora as agências reguladoras ainda não tenham uma proteção total contra o arbítrio, algumas foram enfraquecidas no último governo, mas temos duas instituições que se preservam e criam incentivos para políticas econômicas responsáveis. De um lado, a lei de responsabilidade fiscal, que se tornou um marco do sistema fiscal brasileiro, e hoje é reconhecida como uma das melhores leis nesse campo: estabeleceu restrições ao gasto irresponsável, limites para o endividamento, restrições à contratação de pessoal e ao início de obras durante os períodos eleitorais.

E o Banco Central?
― O Banco Central é outra instituição econômica forte no Brasil, é autônomo, não precisa consultar o Presidente da República, nem se submeter a pressões de ministério, para tomar decisões que seu Comitê de Político Monetária julga adequado a fim de preservar a estabilidade da moeda. Em terceiro lugar, a imprensa, no sentido amplo, institucional: a mídia. O Brasil tem uma imprensa não apenas livre, mas também independente e competente, com uma qualidade semelhante à de países desenvolvidos. E, finalmente, é importante destacar que a sociedade se tornou intolerante à inflação. E as instituições incluem as crenças da sociedade: a maneira como a sociedade vê determinados aspectos da vida nacional. Depois de um aprendizado difícil, o brasileiro se tornou avesso à inflação, principalmente a população de baixa renda, que é a que sofre mais com a inflação. Nesse ponto, há uma diferença fundamental: boa parte dessa população passou a votar. No passado, eram os principais perdedores com a inflação, e ainda assim não votavam, porque o analfabeto não votava.

Mas isso interfere em termos de segurança para o mercado?
― Sim. Hoje o Presidente da República ainda preserva um poder de arbítrio terrível: ele pode emitir uma ordem para o Banco Central, manipular taxa de juros, manipular taxa de câmbio, para atender a pressões de analistas, de políticos, mas ele não o faz, pois o custo político desta ação será superior aos possíveis benefícios que obterá. Uma ação deste tipo geraria uma crise de confiança, os mercados puniriam o presidente da maneira que lhe é possível: precificando os ativos com base na sua avaliação de risco. Uma decisão nessa linha produziria um tumulto nos mercados, quedas nas bolsas de valores, o câmbio dispararia, os juros futuros iriam às alturas, o que geraria uma paralisia na atividade econômica, uma fuga de capitais, com a criação de um ambiente de insegurança que afetaria não apenas as empresas, mas também o eleitor. O eleitor puniria o presidente com a perda de sua popularidade no mesmo momento, e a sua derrota eleitoral na sequência. Esse conjunto de instituições colocou o Presidente da República do Brasil sob o controle de duas grandes forças sociais. De um lado a disciplina dos mercados: que não mandam no governo, mas são vigilantes e sabem avaliar riscos; do outro lado: o voto na urna, na pesquisa de opinião. O Brasil é cada vez mais visto como um país de instituições fortes, que preservam a estabilidade macroeconômica e criam um ambiente novo para investimentos. A criação desse novo ambiente institucional protege a sociedade e os investidores do arbítrio e da irresponsabilidade dos governantes.

Mas é possível confiar nos critérios utilizados pelos mercados para realizar a precificação das decisões políticas?
― O Brasil já tem mercados, de capitais e financeiro, com grau de transparência e de informação comparável ao de mercados mais desenvolvidos. E a precificação dos ativos deriva da disponibilidade de informação, da transparência das ações do governo, tanto do Banco Central (BC) quanto do Tesouro Nacional. A partir da instituição do regime de metas de inflação, várias medidas foram adotadas para tornar o BC mais previsível e aumentar sua capacidade de coordenação das expectativas dos agentes de mercado. Isso se deu primeiro com a divulgação das atas, a cada oito dias após as reuniões do Copom (Comitê de Política Monetária). Depois, o BC criou um mecanismo por meio do qual os agentes de mercado avaliam permanentemente a conjuntura e apresentam as suas expectativas. Semanalmente, eles colocam nos computadores do BC as suas projeções dos principais indicadores macroeconômicos, e como a gente sabe, a média dessas opiniões é divulgada toda segunda-feira. Além disso, o BC criou um mecanismo de competição entre esses agentes, que é o " top five ": uma lista com os que obtiveram mais acertos e isso passou a ser um sinal de prestígio. Para coroar, a exemplo do que fazem os Bancos Centrais do mundo, particularmente os da Nova Zelândia, da Austrália, do Reino Unido, o BC promove encontros periódicos com os analistas de mercado, para ouvir suas opiniões. Criou-se, dessa forma, um ambiente de previsibilidade inédita das ações do BC. E, quanto maior essa previsibilidade, maior a capacidade do BC para coordenar expectativas e para adotar decisões que tenham mais efetividade e menor custo social. Essa é uma das garantias de que o governo não vai fazer tolices, porque os mercados têm uma percepção grande de qual será o seu comportamento e vice-versa. Durante esse período, o grau de acerto desses especialistas foi superior a 95%.

Mas o BC ainda não é independente.
― Mas o Brasil estará completando agora, ao final do mandato do presidente Lula, 16 anos de mesma direção de política econômica, o que é absolutamente inédito no Brasil. Ao que tudo indica, os próximos 8 anos serão de consolidação desse processo, provavelmente veremos a independência do BC ser garantida por lei. E, ao final do período de 24 anos _ o próximo presidente pode ficar 8 anos no poder, haverá uma geração que nunca terá visto inflação, o que representará diversos desdobramentos desse processo: como a criação de condições ainda melhores para o florescimento de um pujante de mercado de capitais. No entanto, para que o mercado de capitais funcione, também é necessário um conjunto de circunstâncias e uma boa regulação.

Nesse sentido, a CVM deve seguir o mesmo processo de amadurecimento institucional que ocorreu com o BC? Que tipo de mecanismos poderiam ser adotados?
― A CVM trilha um caminho muito semelhante ao do BC. Não tem a mesma visibilidade, porque não teve que enfrentar as crises inflacionárias vividas no passado. Mas, na minha avaliação, a CVM se consolida, cada vez mais, como um xerife competente do mercado de capitais, com a geração de normas que facilitam o desenvolvimento dos mercados, e a criação de mecanismos de defesa dos interesses dos minoritários. Ao mesmo tempo, a auto-regulação também avançou muito no Brasil, sobretudo com a criação do Novo Mercado. E as instituições de mercado, como a Bovespa e a BM&F se consolidaram com grande competência, solidez e credibilidade, até atingir a abertura de capital e a realização da fusão de ambas. Essa nova realidade começou a gerar, não apenas um ambiente para os mercados de capitais se tornarem a grande fonte de financiamento das empresas, de capital de longo prazo, mas também para um ciclo benigno de crédito na economia. Se é correta a análise de que a estabilidade macroeconômica veio pra ficar, também é correto dizer que o Brasil vai continuar avançando no aprofundamento financeiro.

Há recursos?
― Há a tendência do crédito continuar a crescer a uma velocidade maior que a do crescimento da economia, e com uma novidade: a estabilidade macroeconômica, regras estáveis e boa regulação. Outra realidade a ser destacada é o surgimento dos últimos 20 anos de poderosos investidores institucionais, um componente fundamental para o mercado de capitais. Há 20 anos atrás, as reservas técnicas dos fundos de pensão, dos fundos de investimento, e das seguradoras representavam algo próximo a 5% do PIB, agora já supera 60% do PIB. É uma massa extraordinária de recursos que começa a se aproximar dos 800 milhões de dólares, que está à procura de ativos, de lastro para suas reservas. Poucos mercados emergentes conseguem reunir, como o Brasil, esse conjunto de instituições, investidores institucionais robustos, ambiente regulatório satisfatório do mercado de capitais e políticas macroeconômicas responsáveis.




Gostou deste texto?
Receba semanalmente o resumo das publicações do Espaço Jurídico BOVESPA, clique aqui.

© Copyright Bovespa. Todos os direitos reservados